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Guaxupé, 02 de abril de 2026


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Símbolos do crime e mortes por engano: quando facções confundem inocentes como rivais

Publicado domingo, 04 de janeiro de 2026





Por Lucineia vieira

A execução dos quatro jovens mineiros em Biguaçu (SC), encontrados em um cemitério clandestino usado pelo PGC, expôs novamente uma dinâmica cruel e recorrente no Brasil: pessoas sem envolvimento com o crime sendo confundidas como integrantes de facções rivais. O caso não é isolado. Nos últimos anos, episódios semelhantes se multiplicaram em diferentes estados, revelando como gestos, tatuagens e símbolos cotidianos podem se tornar sentenças de morte em territórios dominados pelo tráfico.

O caso de Biguaçu

Bruno Máximo da Silva, Daniel Luiz da Silveira, Guilherme Macedo de Almeida e Pedro Henrique Prado de Oliveira, moradores de Guaxupé e Guaranésia, em Minas Gerais, desapareceram em 28 de dezembro e foram encontrados dias depois, enterrados em área de mata. A investigação aponta que o grupo foi confundido com membros do PCC, facção rival do PGC. Uma foto em rede social, onde um dos jovens fazia o gesto conhecido como “Tudo 3”, teria reforçado a suspeita equivocada. As famílias negam qualquer ligação com o crime e afirmam que os rapazes estavam em Santa Catarina em busca de oportunidades de trabalho.

Casos semelhantes pelo Brasil

-Jericoacoara (CE), 2024: Henrique Marques, 16 anos, foi sequestrado e morto após traficantes locais encontrarem fotos no celular em que ele fazia um gesto com três dedos. O sinal foi interpretado como referência ao PCC. A família afirmou que o jovem não tinha qualquer envolvimento com facções e não sabia do significado do gesto.

-Rio de Janeiro, 2024: Diely da Silva Maia, 34 anos, morreu ao entrar por engano em uma comunidade dominada pelo tráfico. O carro de aplicativo em que estava foi alvejado por criminosos que confundiram os ocupantes como rivais.

-Manaus (AM), 2025: Izabele Dinelly, 15 anos, foi sequestrada e assassinada após ser confundida com integrante de uma facção rival. O caso gerou grande comoção na capital amazonense e expôs a vulnerabilidade de adolescentes diante da violência das facções.

-Itapipoca (CE), 2025: Nara Kércia, 20 anos, foi morta a tiros junto com o namorado ao procurar a casa da tia. O casal foi confundido com membros de facção rival e executado.

-Bahia, 2025: Quatro pessoas foram assassinadas em diferentes cidades após serem vistas fazendo gestos de mãos interpretados como símbolos de facções. Nenhuma delas tinha envolvimento com o crime.

-São Paulo, 2025: Carlos Alves Vieira, de 48 anos, foi morto pela ROTA após ser confundido com um chefe do PCC que tinha o mesmo apelido. O caso levantou debates sobre erros de identidade em operações policiais.

O papel dos símbolos e sinais

Segundo estudo do Observatório de Segurança, facções utilizam símbolos, sinais e signos como ferramentas de comunicação e identidade. Eles aparecem em gestos de mãos, tatuagens, números, cores e até marcas de roupas.

-Função social: reforçam pertencimento e hierarquia.

-Função territorial: marcam áreas de domínio e intimidam rivais.

-Função comunicativa: permitem reconhecimento entre membros sem uso de palavras.

O problema é que, fora do contexto criminoso, esses símbolos podem ser usados de forma inocente — em fotos, brincadeiras ou estilos pessoais — mas ainda assim interpretados como sinais de facção. É nesse ponto que a confusão se torna fatal.

Algumas organizações criminais presentes em todas as regiões do Brasil:

-TUDO 2: Gestos com dois dedos levantados (em forma de “V”, tradicionalmente usado como “paz e amor” ou “vitória”). Comando Vermelho (origem no Rio de Janeiro, presente em diversos UF do Brasil), União do Crime do Amapá (Amapá), Comando da Paz (Bahia), Bonde do Ajeita (Bahia), Comando Vermelho do Maranhão (Maranhão), Novo Okaida (Paraiba e Rio Grande do Norte), Comando Vermelho de Goiás (Goiás), Primeiro Comando de Vitória (Espírito Santo), Máfia Paranaense (Paraná), Primeiro Grupo Catarinense (Santa Catarina), Comando Vermelho de Santa Catarina (Santa Catarina), Bala na Cara (Rio Grande do Sul).

-TUDO 3: - Gestos com três dedos levantados (muitas vezes o indicador, médio e anelar). Primeiro Comando da Capital (origem em São Paulo, presente em quase todas UF do Brasil), Bonde dos 13 (Acre, Tocantins), Terceiro Comando Puro (Rio de Janeiro), Amigos dos Amigos (Rio de Janeiro) Comando Classe A (Pará), Família Terror (Amapá), Primeiro Comando do Panda (Rondônia), Guardiões do Estado (Ceará), Bonde do Maluco (Bahia), Estados Unidos (Paraíba), Comboio do Cão (Distrito Federal), Os Manos (Rio Grande do Sul).

Os símbolos “Tudo 2” e “Tudo 3” são gestos com os dedos que representam facções criminosas rivais no Brasil: o “Tudo 2” está associado ao Comando Vermelho (CV), enquanto o “Tudo 3” é ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC). O número de dedos levantados corresponde à quantidade de letras das siglas das facções.

Impacto social e vulnerabilidade

A maioria das vítimas desses enganos é jovem, muitas vezes migrante ou turista, sem conhecimento das dinâmicas locais do crime. A expansão territorial das facções amplia os riscos, levando a tragédias em regiões turísticas e em cidades médias.

Além da dor das famílias, há o estigma: parentes precisam provar que os mortos não tinham envolvimento com o crime, enfrentando desconfiança social e institucional.

Conclusão

A repetição desses casos mostra que símbolos e gestos se tornaram “armas invisíveis” no mundo das facções. A violência não atinge apenas rivais, mas também inocentes que, por desconhecimento ou coincidência, são confundidos como inimigos.

Especialistas defendem políticas públicas de educação comunitária, campanhas de conscientização sobre os riscos de gestos e símbolos, além de maior investimento em inteligência policial para evitar que erros de interpretação continuem custando vidas.




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