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Guaxupé, 27 de setembro de 2021


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GOLINHOS DE CAFÉ

Publicado sexta, 16 de julho de 2021





Pe Dione, pároco da Igreja de São Sebastião, em Juruaia

 

Desde minha infância, no bairro Barra Bonita (Muzambinho, MG) os dias de inverno tem mais aroma que qualquer outra estação... é tempo da “panha de café”! Seria mais culto dizer colheita, mas “panhar” café, não é só recolher o fruto do cafeeiro, e sim acordar de manhã em meio ao frio da geada fina; encher a garrafa de água e os olhos de esperança; é abraçar o embornal com tanto afeto a ponto de esquentar a marmita; é preparar os objetos com a mesma devoção que o padre prepara o altar, é ver a mãe ou a esposa, ao romper da aurora, ajeitar o almoço dentro do embornal; ver os trabalhadores se paramentarem com esmero: sapatos bem fechados e vestes grossas, toscas luvas para as mãos e para a cabeça um boné ou chapéu, que será a proteção contra a garoa, o sol e a chuva. É sair cortando o nevoeiro, tal como os discípulos de Emaús, passo lento e coração carregado, mas certo de que não se está só: embora os olhos não vejam, é sentir o coração arder pela presença do Deus e de Nossa Senhora, que também são boias-frias conosco, e nos cumprimentam no canto do Bem-ti-vi, na pressa da siriema, no voo do gavião, e no calor dos primeiros raios de sol, colorindo os picos orvalhados das montanhas. A lida é dura, mas cada um traz em si algo que não se explica e que chamamos esperança. 

Após ir para o seminário, pensei que estas coisas da “panha” se apartariam de mim. Vã ilusão! Quem vive junto do cafezal, comunga tanto de seu perfume que nunca de arreda dele! Certo dia, preparando uma palestra, sobre documento “Evangelho da Alegria” do papa Francisco (Evangelii Gaudium), caiu-me a citação “a vida se alcança e amadurece à medida que é entregue para dar vida aos outros” (EG 10). Por divina inspiração pensei “o ciclo do café é a melhor comparação para isto!” E foi aí que passei a contemplar a teologia dos boias-frias, a qual agora relato: 

Durante meses o pé de café gera seu fruto com mestria: grãos perfilado nos galhos e revestidos de uma veste, de cor cereja ou dourada, tão bela "que nem Salomão, em todo o seu esplendor, vestiu-se como um deles" (Lc 12, 27). Seus galhos, não possuem espinhos que ofereçam resistência. Porém, no auge de sua doçura, cada grão é brutalmente arrancado, e o cafeeiro os oferta sem protesto: seu fruto é “como um cordeiro levado ao matadouro" (Is 53,7). Ah, se soubéssemos nos ofertar como oferta o café!  Sem prestígio, sem recompensa, sem suborno, sem propina! Após a colheita os grãos passam pela seca. Esparramados no terreiro, são expostos ao sol para se desidratem. E quanto mais exposto está, mais perfume oferta! Como é bom retornar a tarde e ser recebido pelo seu perfume! O sumo de cada grão concentra-se e então adquire mais sabor! Às vezes, é necessário que a gente passe pela provação do sol e adquira mais aroma! Não podemos ser cristãos que “ouvem a Palavra e a aceita com alegria. Mas, sem raiz, não dura muito tempo” (Mt 13,19s). As provações não apenas nos queimam, mas também fazem com que apuremos a fé, e apesar da dor, exalemos o “suave perfume de Cristo” (2Cor 2,15). 

Após a seca, é preciso tirar a casca. Só então um peculiar dourado se revela, e se a veste do grão maduro era bela, esta outra é ainda mais! Não deve ser fácil tal “metamorfose”, mas é necessária. Necessária também o é na vida de fé: é preciso sempre mudar a roupagem para emergir a novidade. Já disse Paulo: “Vós vos despistes do homem velho com os seus vícios, e vos revestistes do novo” (Cl 3, 9s). Ah, se acreditássemos nisto de verdade! De fato “um evangelizador não deveria ter constantemente uma cara de funeral!" (EV 10). Quem dera se entendêssemos que, tal como na história de Bartimeu, o milagre só acontece quando temos a coragem de “jogar fora o manto, erguer-se em um salto e ir para Jesus” (cf. Mc 10,50)! 

Após isso, vem a torrefação e a moagem. No fogo cada grão é experimentado! E quanto mais queimado e moído, mais perfuma! Também Jesus, quanto mais humilhado e pisado foi, mais amor verteu nos braços Santa Cruz! Aí reside a loucura do cristianismo: amar mesmo quando só se sente dor! Assim escreveu o Papa: “somos chamados a ser pessoas-jarro para dar de beber aos outros. Às vezes o jarro transforma-se numa cruz, mas foi precisamente na Cruz que o Senhor se  entregou como fonte de água viva!” (EG 86).  

E mais ou menos assim, aprendi teologia com o café... quando tomo um gole de café, lembro-me que a cada ano meu povo renova sua esperança, e que, cada golinho é uma oportunidade de prosear com um amigo, de refletir as crises pessoais, teologizar e perceber Deus no comum de cada dia! 


COLUNISTA


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