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Guaxupé, 21 de maio de 2022


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MÚSICO DE MUITOS PERÍODOS

Publicado sexta, 11 de junho de 2021





Faleceu nesta sexta-feira, dia 11, aos 76 anos, o músico Wilson Caetano, vítima de uma efizema pulmonar.

Seu corpo está sendo velado no Velório Municipal e o enterro acontecerá às 17h.

Em sua homenagem, reproduziremos a entrevista para a coluna MINHA HISTÓRIA, publicada em 2008.

Wilson José Caetano de Oliveira, 63, natural de Guaxupé, filho de Maria Luíza Caetano, dona de casa, e do pedreiro Rodgério Felipe Caetano, Bombarista da banda de Juruaia, é um dos músicos mais conhecidos e respeitados da cidade. “Neto de criação” do autor da música Hino de Guaxupé, Vicente Prado, relembra com seu humor habitual as aventuras vividas com Os Falcões.

 

O interesse pela música começou por volta dos 17 anos, com o professor de latim Ernesto: “Não sou Adoniran, mas também tive um Arnesto na vida”, brinca. As primeiras músicas que aprendeu a tocar no violão foi com Lena Leite Ribeiro, professora de piano. “Na época eu era meio atirado e entrava no meio das feras, mesmo sabendo só uns acordes”, recorda. Como o violonista Dagmar, do Banco do Brasil, “um Baden Powel” da época, que tocava por hobby, e aconselhava o jovem músico: “Tem que ser corajoso, intrépido, não pode ter medo de passar vergonha.”

Quando conheceu Miguel de Carvalho, que tocava gaita e trabalhava na loja do Latif Farah, e, por intermédio dele, Adecar Pasqua, clarinetista, surgiu uma grande amizade. Juntavam-se ao trio outros amigos que curtiam música. Assim, começaram a pensar em formar um conjunto. Em meados da década de 60, surgiu Os Falcões, com Abelardo Antonelli, sax e piston, Jurandir de Melo, vocalista (ou crooner), e Nôra, baterista, logo substituído por Cuíca. “Escolhemos Falcão porque é uma ave que voa alto. Como todo conjunto daquele tempo, a gente era idealista e sonhador”.

De acordo com Wilson, não existia esse negócio de tocar em bar. O grupo se apresentava nas casas, em festas de aniversário. Embora influenciados pelos Beatles, como todo conjunto da época, tocavam muita música italiana e samba: “Queríamos ser uma banda de baile, por isso nosso repertório precisava ser versátil.”

Nesse ínterim, Permínio (primo de Severo Silva) que trabalhava na Editora Abril, conseguiu trazer para Guaxupé e Mococa o show do Roberto Carlos: “Roberto chegou num conversível vermelho e cantou no nosso som”. Alguns meses depois, foi a vez de Erasmo Carlos. Os Falcões abriram todas as apresentações dos artistas. “O show do Erasmo, em Mococa, estava marcado para as 22h, mas chegamos de Combi, 2 horas atrasados. O público estava na frente do cinema, porque o juiz havia embargado o show. O povo agarrava o cabelo comprido do Cuíca e chutava a Combi. Batemos em retirada, queriam linchar a gente. Encontramos Erasmo na entrada da cidade e voltamos para Guaxupé, onde passamos a noite jogando boliche (onde hoje é a Galeria Brinquedos e Edmil).” Como recordação desse encontro singular, os músicos ganharam um pino de boliche autografado pelo Erasmo, agradecendo pela noite maravilhosa. Wilson conta que passou muitos anos retocando com tinta as palavras escritas pelo “tremendão”, para não se apagarem.

A estréia na noite, aconteceu na Churrascaria Bambu: “Aprendemos bolero com Zé Áccula”. A partir daí, começaram a tocar profissionalmente toda semana na badalada casa noturna da época. O 1º baile dos Falcões aconteceu em Tambaú, durante o Reveillon e, assim, deslancharam para toda a região. “Acho que revolucionamos nessa parte de shows, aqui no interior, com nosso estilo Ieieiê. A gente se apresentava nos bailes mais formais, de terninho e salto carrapeta.”

Com Os Falcões, Wilson freqüentou o Programa do Bolinha, na TV Excelsior, canal 9: “Íamos lá uma vez por ano, para valorizar nosso cachê. O gerente do banco falava que a gente ganhava mais do que ele”. Mesmo com todo esse sucesso, por volta de 1973, Os Falcões encerrou suas atividades. Da formação original, só restavam Abelardo, Wilson Caetano e Wilson Duque. Este último era contrabaixista, como foram antes Ângelus, Ivan Tauil e Antônio César Mantovani.

 Fase solo

Durante 8 meses, Wilson tocou numa banda de Matão, SP. Quando a saudade apertou, decidiu voltar a Guaxupé, estimulado pelos convites de Zé Áccula. Nesse meio-tempo, Severo Silva vendia shows e o músico começou a tocar com Oscar Ferreira, Noite Ilustrada, Nelson Gonçalves, entre outros. Sempre acompanhado do baterista Cuíca: “Faísca e Fumaça”.

Em 79, começou a trabalhar na Cooxupé, onde ficou por 18 anos. “Trabalhei com as máquinas eletrônicas de selecionar café, consertei máquinas de costura e, durante anos, fui motorista”. Paralelamente, quando foi inaugurada a casa noturna Paiol, surgiu a banda Evolusom, com Zé Marques, Rui Peloso, Ivan Sapinho, Cuíca, Carlinho Perdigão e Zé Carlos Miranda: “Tocamos lá até pegar fogo, literalmente”.

Aí começou o período dos barzinhos. Já acompanhou Agar, Lurdes, Leila, Luiz Renato e outros. Wilson Caetano é conhecido por todos os músicos da cidade, chamado por muitos de mestre: “A gente vai fazer um som e sempre é bom ter alguém com mais experiência.” Além de violão, guitarra, cavaquinho, banjo, baixo, toca também instrumentos de ritmo: “Não sou exímio percussionista, mas não passo vergonha perto de ninguém”.

Atualmente, Wilson caiu de vez no samba. No passado, foi autor de sambas-enredo dos Amadores do Ritmo e Bicancas. O grupo Nóis no samba, liderado por ele, é sucesso por onde passa, sendo freqüente atrair grande público. E continua tocando MPB: “Junto trabalho com o prazer de estar com os amigos. Não adianta ser um grande músico e ninguém gostar de você, as amizades são importantes.”

Homem de muitos causos

Dona Maria Caetano cozinhava os frangos roubados pela turma, sem saber a origem das aves. Era ela também que benzia os músicos para acalmar os ânimos durante os ensaios que aconteciam na casa dela. Um dia, enquanto cantavam “e que tudo mais vá pro inferno”, o telhado desabou e fez o maior barulhão, assustando todos.

Com Os Falcões, conheceu Renato e seus Blue Caps, Os Incríveis, Jet Black, The Jordans, Agnaldo Rayol, Jerry Adriane, Toni e Celi Campelo, entre outros. Na Copa do Mundo de 66, na Inglaterra, foram convidados para tocar na boate de um cruzeiro que passaria 60 dias no mar e 30 dias em terra. Perderam a oportunidade, um dos motivos foi o pavor que Wilson tem da água. E do ar: “Se tiver uma herança milionária na África, passo pra frente, mas não vou”.

“Comecei a fumar por preocupação. Estavam reformando a estrada de Guaxupé a Paraíso. Levamos 6 horas para chegar lá. Nossa Combi foi pelo pasto, num desvio da estrada. Chegamos suados e sujos. O Binha, na época nosso empresário, preocupado comigo, me deu um líquido para beber. Quando vi, era conhaque. Fiquei numa alegria total a noite inteira. Perdi meu Chapéu Tremendão e meu Anel Brucutu, ganho do Zezão Brochi, que as meninas me roubaram durante o baile. A partir daí, tomei gosto e comecei a beber e fumar.”

Wilson ficou “meio perdidinho” com o fim de Os Falcões. Passou uns tempos em Catanduva, na casa do empresário Orlando Gonelli, onde fez amizade com Francisco Di Franco. “Viajamos muito juntos, no conversível dele, fazendo shows em circos. Eu vigiava a portaria para não passarem a perna na gente e também tocava algumas músicas com ele. Muitas vezes soltávamos foguete na chegada das cidades, pra fazer propaganda, ele como Jerônimo, o Herói do Sertão, e eu, o Moleque Saci. Ficamos cerca de 2 meses nessa brincadeira. Daí, Francisco foi convidado para fazer um filme no Ceará, e eu não quis ir, não sei falar cearense.”

Texto: Sheila Saad

www.papodeviralata.blogspot.com




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