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Guaxupé, 27 de setembro de 2021


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Santuca assumiu diretoria do Delfim no cinquentenário da escola e promoveu grandes mudanças

Publicado segunda, 09 de março de 2020





Em homenagem a querida amiga Santuca, republicamos este artigo que circulou em 2014

Com 27 anos de idade, Maria da Conceição Ribeiro, Santuca, assumiu a diretoria do Grupo Delfim em 1964, no ano em que se comemorava o cinquentenário desta instituição de ensino.  Ela havia se formado no Colégio Imaculada Conceição e foi estudar Administração Escolar em um conceituado instituto em Belo Horizonte. O curso de dois anos ampliou a visão na área da Educação. Tinha objetivo de lecionar, mas cargo de diretora antecedeu o de professora. Santuca substituiu Thereza Bufoni e teve inicialmente como vice, ou auxiliar, a professora Rosa Remédio. 


Segundo o historiador Wilson Ferraz, a partir de 1964 as professoras da rede pública de Minas deixaram de ser nomeadas e passaram a ser concursadas.  Santuca contabiliza 25 anos à frente do Grupo Delfim, ainda que tenha exercido o cargo de inspetora regional entre 1969 e 1970. Depois reassumiu a diretoria por onze anos seguidos, de 1971 a 1982.  Por quatorze anos, 1973 a 1987, foi administradora escolar. Encerrou o terceiro mandato diretivo em 1988. Também foi professora do Ginásio (E.E. Dr. Benedito Leite Ribeiro) e da faculdade de Guaxupé. Assim, educou crianças, jovens e adultos.


Pela diferença de idade, Santuca chamava as professoras de senhora. Ao assumir a diretoria, pediu para comprar giz. A papelaria só venderia depois que o débito fosse acertado. Quis oferecer café a um pai de aluno, mas não havia açúcar, café, xícaras e bandejas na escola. Por faltar materiais básicos e diante de uma sopa fraca servida aos alunos, ela se reuniu com a Comissão Escolar da época, agradeceu a colaboração de todos e formou uma nova comissão com pessoas conhecidas como José Baíse, João Gabriel, Otto Villas Boas, padre Mário Pio, Berta Inês Rios, entre outros.

Festa cinquentenária

Como era ano de cinquentenário, tornou-se oportuno fazer uma quermesse para formar caixa. As professoras foram consultadas e todas aceitaram. No mês de junho, a comemoração cinquentenária durou uma semana. O filho do ex-presidente do Brasil, governador e senador Delfim Moreira, prestigiou o evento, que contou com outras autoridades e a presença da Miss Guaxupé daquele ano.


Uma das fontes de lucro foi o concurso de bonecas vivas, cinderelas e personagens da literatura infantil. As mães caprichavam no visual das crianças. Tecidos e roupas, com feitio doado por costureiras, foram expostos em barracas. A cantina da escola também foi lucrativa, assim como pagar para dançar. Outro atrativo foi o meu histórico da escola, com fotos de três cinquentenários: do Delfim, Academia de Comércio e Colégio Imaculada Conceição.


Para Santuca, a meta era arrecadar o equivalente hoje a 200 mil reais. Na apuração do lucro, o tesoureiro João Gabriel fez suspense. Não tinham conquistado o valor idealizado. Havia ultrapassado, chegou a 205 mil. O primeiro investimento seria a aquisição de mesas e banquinhos para a cantina, para que as crianças não comessem mais em pé, segurando um prato quente de alumínio. Na época, o empresário José Mauer tinha uma marcenaria e doou 240 banquinhos com 40 mesinhas. Depois de muitos anos de uso, esse mobiliário foi doado para a escola José de Sá, que enfrentava a mesma falta de estrutura na cantina.


Com a arrecadação da festa cinquentenária, cada aluno ganhou tecidos para dois uniformes: tergal para a calça ou saia e poliéster para a blusa. Cada sala de aula recebeu cortinas lisas de algodão para que as professoras pintassem com motivos infantis. Também foi adquirido um vaso para cada porta de sala. As plantas foram tarefa dos alunos. A mais bonita seria premiada. Na avaliação de Santuca, foi uma revolução total. “A imagem da escola, que já tinha tradição, foi se elevando.” Paralelamente à estrutura houve mudanças na parte pedagógica. 

Patriotismo, oração e Xereta 

Como ainda é hoje, o Palácio do Bispo fica em frente à Escola Delfim Moreira. Em 1964, quando o Brasil vivia um momento politico delicado, as horas cívicas na escola chegaram a despertar a atenção do bispo Dom José de Almeida Batista, que foi visitar a jovem diretora e a encontrou fazendo faxina. Santuca pensou que a manifestação patriótica estivesse incomodando. Era o contrário, recebeu elogio do bispo.


Antes das refeições, os alunos faziam uma oração, até mesmo para agradecer as mudanças ocorridas na alimentação. Foi implantada a Campanha da Formiguinha, em que alunos com melhores recursos financeiros levavam alguma contribuição de casa para tornar a sopa mais nutritiva e variada de opções. Para melhorar ainda mais criaram o Clube Agrícola, que consistia em uma horta na escola. Técnicos da Emater ensinaram os alunos a plantar verduras e legumes.


As verduras excedentes eram doadas para vizinhos e resultaram em ação social. Santuca convidou um varredor de rua, servidor da prefeitura, para experimentar a sopa. Estava trabalhando sem café da manhã. Ele gostou e recomendou a outros varredores. Mais de dez chegaram a fazer a primeira refeição na escola.


Um aluno sempre se queixava de dor de estômago e pedia remédio. Era fome. Antes de assistir aula, passou a tomar sopa. Santuca foi na casa de um aluno que aparecia com o uniforme sujo e faltava às aulas. Em um local com muito mato e terra, a mãe expôs que ele tinha só um uniforme, que nem sempre secava a tempo de ir para a aula. Ganhou mais um uniforme e levou a realização da campanha do uniforme e materiais escolares. Houve incentivo para doação de sapatos, tênis e uniformes uados, que seriam úteis para alunos que não tinham recursos para comprar. O mesmo acontecia com materiais escolares. Depois que todos os alunos do Delfim Moreira eram beneficiados, ainda era possível colaborar com a escola José de Sá.


Na reunião de pais ficava evidente que era uma escola com alunos de diferentes classes sociais. Mesmo assim, um pai que foi matricular o filho perguntou o valor da anuidade. Ficou surpreso ao saber que era escola púbica. Tinha características de ensino particular, que chegou até a produzir um jornal mensal, contendo redação, editorial, anedotas, aniversários... O título foi ideia de uma das crianças: O Xereta.

Crescimento acelerado

Com a vice-diretora Marisa Ferraz Ribeiro Dallora a partir de 1971, Santuca considera que o Grupo Delfim teve um crescimento acelerado nos 25 aos após o cinquentenário. “O êxito que eu obtive foi graças a uma equipe de pessoas muito disponíveis. Não me arrependo do que não que não fiz. Tudo que eu fiz foi válido”. Por vezes, chega a imaginar que conquistou carisma pelas roupas atrativas que vestia para ir à escola, esquecendo-se de que a irreverência fez parte do histórico de conquistas.


Ao implantar um novo uniforme para as aulas de Educação Física, com camiseta branca, logomarca em forma de triângulo e short ou saia vermelha, recebeu ofício da Delegacia Regional de Ensino de São Sebastião do Paraíso. Como diretora, não estava a mudar as cores e o estilo do uniforme. Ela se impôs, disse que os alunos e os pais gostaram da roupa e que iria mantê-la. Está sendo mantida até hoje, incluindo a logomarca. “Reconheço que errei algumas vezes, mas acertei muito mais do que errei”, ela admite.


Entre os acertos, lembra com saudade do horário de recreio, em que ficava com os alunos para as professoras lancharem. Brincava com eles, riscava amarelinha ou só observava. Uma criança sentou-se ao lado dela e perguntou se Santuca tinha boneca e se era bonita. E deu uma boneca para Santuca, que até hoje é mantida como preciosidade. “Aquele menina me deu o que ela tinha de melhor”. Não por acaso, a ex-diretora avalia: “Eu fiz um trabalho humano, além da educação.”


Quando saiu da escola, após 25 anos, achou que não fosse sobreviver de tanta entrega, tanta dedicação total. “Foram os melhores anos da minha vida. O que fazia era de corpo e alma.”




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