Correio Sudoeste - Entrevista com Jéssica Silva

Guaxupé, 25 de fevereiro de 2020

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Entrevista com Jéssica Silva

Publicado segunda, 13 de janeiro de 2020





Mente sã em corpo são. Corpo são em mente sã. Corpo e mente não são realidades dissociadas. Corpo e mente são realidades unidas, estão em comunhão, precisam estar em harmonia. Cuidar do corpo e descuidar da mente nos trará problemas de saúde. Do mesmo modo, cuidar somente da mente e negligenciar os cuidados com o corpo nos trará problemas de saúde também. Mais uma vez, duas ciências se unem para esclarecer ainda mais a população sobre o que podemos e até devemos fazer para mantermos uma vida mais saudável, serena e feliz. Confira, nesta matéria, a entrevista que o nosso articulista, o psicólogo Rodrigo Fernando Ribeiro, fez com a fisioterapeuta Jéssica Aparecida da Silva, uma destacada e eficaz profissional atuante em Guaxupé, na Clínica Amanda Augusta Pilates e Terapias, e no IAC Vertebral (Instituto de Atendimento à Coluna Vertebral). Acompanhe a entrevista na íntegra:

 

1-Jéssica, o autor do livro Tocar, o significado humano da pele, Ashley Montagu, foi categórico ao afirmar que “o toque é necessidade comportamental básica” para os mamíferos. Você pode comentar essa frase?

O toque é capaz de nos fazer experimentar diversas sensações, e é na realidade uma ferramenta fundamental da vida, porque sentir é ter percepção. Conscientização, sensação e experimentação são conceitos que estão diretamente relacionados. E quando combinados conseguem nos dar a sensação de estar presente, de existir, de sermos.  E sentir é uma qualidade física, psicológica e emocional. Combinamos todas essas qualidades simultaneamente, mesmo que não tenhamos consciência de que isso tudo esteja acontecendo.

Nós podemos ter uma sensação, sentir uma sensação ou vivenciarmos uma sensação... Acredito que somos a soma de tudo que percebemos.

 

2-Gerda Boyesen, autora do livro Entre psique e soma, relata que, pelo toque terapêutico, conseguia desvendar tensões psíquicas/emocionais nas couraças musculares que encontrava ao longo do corpo do paciente. Quando isso acontece com você, que é fisioterapeuta também, qual a importância de estar encaminhando o paciente para a psicoterapia?

Hoje em dia a abordagem biopsicossocial tem sido cada vez mais utilizada na nossa prática clínica, visto que para uma melhora funcional e eficaz do paciente, o mesmo não pode ser tratado de forma fragmentada. É de extrema importância que profissionais do movimento tenham habilidades necessárias e a mente aberta o suficiente para olhar além do quadro de dor e das limitações físicas, e enxergar os gatilhos não só biomecânicos, mas também os gatilhos de fundo cognitivo, sensorial e emocional.  E informar o paciente da necessidade de procurar a psicoterapia, visto que tais fatores influenciam diretamente na evolução e no prognóstico do tratamento fisioterapêutico.

 

3. Frédérick Leboyer, autor de dois fantásticos livros (Nascer Sorrindo e Shantala), mostrou ao mundo o que na Índia sempre se soube de maneira intuitiva: nossa necessidade tátil de acolhimento e aconchego para nos manter saudáveis, e que já deve ser iniciado na primeira infância, em família. Sabemos que nosso maior órgão é a nossa pele. No entanto, a tecnologia, se de alguns modos tem aproximado as relações virtuais, pois partilhamos informações de maneira instantânea e simultânea, de outros modos ela nos distancia. Cena comum: Papai, mamãe e filhos. Todos juntos, mas cada um no seu canto. Já nem se olham mais nos olhos, pois o que está na tela parece ser mais interessante. De muitos modos, parece não haver mais espaço para o abraço. E isso tem adoecido as pessoas no corpo e na alma. Você concorda? Você constata isso na sua atividade clínica?

De fato é cada vez mais comum ao observarmos os encontros, sejam eles familiares ou não, o quanto o uso contínuo das novas tecnologias têm distanciado cada vez mais os indivíduos. As pessoas estão presentes fisicamente uma das outras, mas esquecem cada vez mais de se olharem, de perceber o outro, de estar de fato PRESENTE naquele momento. Eu não só concordo com a narrativa acima como presencio na minha rotina diária. 

 

4-O corpo humano foi projetado para estar em movimento. O cirurgião plástico Ivo Pitanguy afirmou que “para o ser humano, seu corpo é sua forma de se identificar com o mundo.” Para Moshe Feldenkrais, no livro Consciência pelo movimento, “má organização da postura significa má organização da personalidade.” O psicólogo Pierre Weil passou grande parte de sua vida ensinando as pessoas a promover a paz, por meio de atividades respiratórias e meditativas realizadas através de posturas facilitadoras. Tanto numa atividade física de manutenção do bem estar corporal, quanto nas sessões fisioterápicas de reabilitação, as ofertas ou as recomendações de fazer o corpo se mover são muitas e eficientes: caminhada, musculação, natação, ioga, tai chi chuan, pilates etc. Como você, Jéssica, compreende e vivencia esse bem estar psíquico quando se promove o bem estar físico?

 

Desde muito nova, o movimento sempre foi algo muito presente na minha vida e, mais recentemente, quando de fato transformei o movimento em ferramenta de trabalho através da Fisioterapia, entendi que MOVIMENTO é um dos remédios necessários para manter um bom estado físico, mental e emocional, sendo que o estado emocional tem ação significativa e direta sobre a função motora. Estados emocionais negativos como medo, ansiedade e estresse, podem ser expressados como má adaptação muscular, com posturas associadas a alterações na atividade muscular, e consequente sobrecarga no sistema musculoesquelético causando tensões musculares, gerando uma rede de compensações corporais, sem falar que contribuem diretamente com a sensibilização do sistema nervoso, influenciando assim nos estados dolorosos, principalmente os de dores crônicas. Se você consegue encontrar uma atividade física que lhe agrade e traga prazer durante sua prática, que no meu caso hoje em dia é o pilates e a caminhada, você inverte a ordem desses fatores que citei acima, diminuindo níveis de estresse e ansiedade, melhorando a qualidade de sono, o humor. O que reflete diretamente na melhora da sua disposição para realizar as atividades necessárias do seu dia-a-dia.

 

 

5-Guilherme Arantes, na música Labirinto, escreveu: “Quero a sua mão no meu cabelo que é pra desembaraçar meu pensamento.” Cafuné... Como é bom! Massagem, a mão que amassa, pressiona, desliza. Carícias essenciais raras nos dias de hoje. A mão amorosa comunica afeto, respeito, compreensão, desfaz tensões, cura feridas na alma. Qual é a sua opinião complementar sobre esta prática tão vital para nós? Sobre o cafuné e a massagem que poderiam ser cultivadas já em família...

 

O toque é uma linguagem necessária do ser humano. Antes mesmo de falar, nosso corpo fala por nós. Começa como primeiro contato, logo após o nascimento e nos acompanha por toda a vida.  É através dele, juntamente com outras reações não necessariamente verbais que temos a percepção da raiva, tristeza, alegria, simpatia, gratidão, amor, enfim...  Acho imprescindível que os pais não só abordem a importância do tato, como se toquem e toquem seus filhos. Porque a ausência do toque, principalmente no ambiente familiar, reflete diretamente nas relações futuras e na forma como esse indivíduo vai se comportar na sociedade.

 

6-Jéssica, frequentemente a pessoa que é entrevistada acaba encerrando uma entrevista com algo que gostaria de ter falado, mas que não lhe foi perguntado pelo entrevistador. Então, deixo aqui, um espaço livre para você dizer aos leitores deste jornal, o que gostaria de ter dito e não falou. Ou ao menos deixe sua mensagem final de fisioterapeuta.

 

Primeiramente gostaria de lhe agradecer pelo convite. Ainda que nova como profissional da saúde, sei o quanto é importante que aconteça essa comunicação e troca de informações entre os diferentes profissionais que compõem a equipe multidisciplinar.  A Fisioterapia é uma profissão nova ainda em nosso país, quando comparada a outras, e vem crescendo de uma forma significativa, o que muito me alegra.  Espero que as pessoas entendam cada vez mais cedo a importância de cuidarem de sua saúde de forma geral, buscando terapias que visem a melhora do bem estar físico e mental para que assim possam desfrutar com plenitude de todas as coisas que a vida tem as nos oferecer. Me coloco também a disposição para ajudar, em caso de dúvidas ou maiores informações a respeito da Fisioterapia.


COLUNISTA
Rodrigo Fernando Ribeiro
Psicólogo - CRP-04/26033
(Contato: 35 9 8875-5030)


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