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Guaxupé, 10 de maio de 2026


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Mães Tóxicas: O Silêncio que Dói no Altar da Maternidade

Publicado domingo, 10 de maio de 2026





Por Lucineia Vieira

O segundo domingo de maio é, para a maioria, um cenário de flores, cartões coloridos e celebrações do "amor incondicional". No entanto, por trás das vitrines engalanadas e do marketing da perfeição , existe uma realidade invisível e dolorosa: a de filhos que não encontram no colo materno um porto seguro, mas sim um campo de batalha emocional.

Na psicologia, o termo “mãe tóxica” tem sido cada vez mais utilizado para descrever não um diagnóstico clínico oficial, mas um padrão persistente de comportamentos disfuncionais que comprometem a saúde mental e o desenvolvimento dos filhos. Diferente de erros pontuais ou do estresse cotidiano, essa dinâmica é marcada por ciclos de manipulação, controle excessivo e uma profunda incapacidade de reconhecer a individualidade do outro.

A ideia de que "toda mãe ama acima de tudo" está tão enraizada em nossa cultura que questionar o comportamento materno ainda é um dos maiores tabus da sociedade. No entanto, psicólogas como Laura Zambotto, Gláucia Santana, Priscila Gasparini Fernandes e Rafaela Schiavo alertam que desconstruir essa visão sagrada é o primeiro passo para a cura. Afinal, mães também são seres humanos atravessados por seus próprios traumas e limitações emocionais.

Nesta reportagem, mergulhamos nas nuances dessa relação complexa. Entenda como identificar os sinais de alerta, quais as sequelas que a toxicidade deixa na vida adulta e por que estabelecer limites — ou até mesmo o distanciamento — pode ser, em muitos casos, o maior ato de sobrevivência emocional que um filho pode exercer.

Perfis e Comportamentos Comuns

Não existe um perfil único, mas sim padrões de comportamento prejudiciais que podem incluir traços narcisistas, manipulação e controle excessivo.

-Mães Controladoras e Superprotetoras: Exercem controle total sobre a vida dos filhos, impedindo seu crescimento e autonomia por medo da perda ou alta ansiedade.

-Mães Vitimistas: Utilizam suas próprias dores e histórias de vida difíceis para manipular os filhos através da "dó", fazendo-os sentir-se responsáveis por sua felicidade.

-Mães Competitivas e Invalidadoras: Frequentemente disputam com os filhos (especialmente com as filhas), desvalorizam suas conquistas e utilizam críticas destrutivas disfarçadas de preocupação.

Para a psicóloga Laura Zambotto, uma característica central é a necessidade da mãe de ser sempre o centro das atenções, ultrapassando os limites de relações saudáveis. Já Priscila Gasparini ressalta que o afeto nessas relações costuma ser condicionado à obediência ou submissão do filho. “Quando uma criança tem como principal cuidadora essa mãe e ela é tóxica, se essa criança não tiver um outro adulto que possa mostrar que ela é capaz, que a parabenize pelas coisas que produz e que ajude em sua autoestima, o desenvolvimento será afetado. Esse adulto terá uma baixa autoestima e dificuldade em manter relacionamentos saudáveis, pois foi a forma como ele internalizou o que é o amor e o que é um relacionamento. Ele internalizou, vindo de alguém em quem deveria confiar, que ele não presta”, comentou Rafaela Schiavo.

Diferença entre Mãe Severa e Mãe Tóxica

É fundamental distinguir erros pontuais de padrões abusivos. “Toda mãe pode errar, perder a paciência ou ter dificuldades emocionais. O problema está na repetição do padrão, na ausência de responsabilização e no impacto contínuo sobre o filho. A mãe tóxica costuma transformar a relação em um ambiente emocionalmente instável, onde o afeto depende de obediência, submissão ou validação constante dela”, explica a psicóloga Priscila Gasparini.

Algumas diferenças:

-Mãe Severa/Difícil: Pode ser rígida ou cometer erros na educação, mas possui empatia, consegue pedir desculpas e busca mudar seu comportamento diante de orientações profissionais.

-Mãe Tóxica/Narcisista: Apresenta uma repetição persistente de abusos sem assumir responsabilidade, muitas vezes terceirizando a culpa e invalidando o sofrimento do filho.

A psicóloga perinatal Rafaela Schiavo explica que a mãe severa coloca limites sem intenção de ferir, enquanto a mãe narcisista ataca o filho verbalmente com frases como "Eu nunca deveria ter tido filhos".

Impactos no Desenvolvimento e na Vida Adulta

Crescer sob essa dinâmica deixa sequelas profundas que podem perdurar por toda a vida.

“Como diz a escritora Lya Luft, “a infância é um chão que pisamos a vida inteira”, ou seja, a forma como somos tratados na infância influencia diretamente a maneira como aprendemos a amar e sermos amados. Quando uma criança cresce sendo criticada, invalidada, comparada ou emocionalmente negligenciada, ela pode internalizar a ideia de que não é suficiente, já que nada que ela fez foi o suficiente para receber o amor do maior objeto de desejo dela: sua mãe. Na vida adulta, isso pode gerar relacionamentos marcados por dependência emocional, medo de rejeição, dificuldade de impor limites, necessidade de ser o salvador ou até tolerância excessiva a relações abusivas. Muitos pacientes relatam que se sentem responsáveis pelo bem-estar de todos ao redor, mas completamente desconectados das próprias necessidades”, relata a psicóloga Laura Zambotto.

Algumas dos impactos negativos:

-Autoestima e Insegurança: Adultos frequentemente sentem que nunca são suficientes ou merecedores de sucesso e amor.

-Hipervigilância: Como precisaram monitorar o humor da mãe para "sobreviver" emocionalmente na infância, tornam-se adultos hipervigilantes, com dificuldade de relaxar e de tomar decisões.

-Relacionamentos Disfuncionais: Existe uma tendência a atrair parceiros abusivos ou tornar-se dependente emocional, pois aprenderam a associar amor a controle e instabilidade.

A psicóloga Gláucia Santana destaca que muitos desses adultos desenvolvem a "síndrome do impostor" e uma culpa crônica, buscando constantemente validação externa por não possuírem uma base emocional segura.

“Vamos supor que essa mãe agrida fisicamente o bebê ou a criança . Além dessa violência física, pode haver uma violência verbal, uma violência psicológica ou uma negligência exagerada. Tudo isso é tóxico para uma pessoa em desenvolvimento. Ocorre também quando ele vê, naquela figura que deveria cuidar, alimentar e dar abrigo, alguém que ele não consegue compreender. Ele passa a não entender muito bem o que é o amor ou o que é receber amor, gerando um déficit em relação a isso. Ele começa a entender que amor é agressão, que amor é violência”, explica Rafaela Schiavo, na MaterOnline.

Dia das Mães sem comemoração

Para algumas pessoas que vivem essa relação maternal tóxica, a data acaba não sendo comemorativa: “Existe a ideia romantizada da maternidade. Quando o filho entende que não teve essa mãe romântica, mas sim uma mãe agressiva e tóxica que deixou traumas, sequelas de comportamento e de saúde em sua vida, uma data comemorativa como o Dia das Mães pode ser um momento de reclusão, raiva ou ira. Pode trazer sentimentos de tristeza para algumas pessoas; para outras, pode gerar indiferença como um mecanismo de defesa para se proteger da dor. Ela coloca essa armadura para não entrar em contato com essa dor profunda. Aqueles que entram em contato com a dor podem se sentir tristes nessa data, questionando por que não tiveram uma mãe que agisse de forma diferente”, explica Rafaela Schiavo.

A psicóloga Priscila Gasparini Fernandes comenta: O Dia das Mães costuma reforçar uma ideia muito romantizada da maternidade. As campanhas publicitárias vendem uma imagem de amor incondicional, acolhimento e perfeição emocional. Para quem vive uma relação dolorosa com a mãe, essa data pode despertar tristeza, culpa, sensação de inadequação e até luto emocional.

Muitas pessoas sofrem em silêncio porque existe uma pressão social muito forte para amar e agradecer independentemente da história vivida. Ainda há dificuldade em aceitar que maternidade não transforma automaticamente alguém em uma pessoa emocionalmente preparada para cuidar. Ser mãe não elimina traumas, imaturidades emocionais ou transtornos de personalidade. A sociedade romantiza a figura materna porque ela representa um símbolo cultural muito poderoso. Questionar isso ainda provoca desconforto coletivo.

“A sociedade tem dificuldade em entender que o instinto materno não existe, pois são anos de construção dessa crença. O Estado e a Igreja empenharam-se fortemente, desde o século XVII, em construir a ideia de que o sonho de toda mulher é ser mãe e que toda mulher ama seus filhos e é carinhosa. Filmes, novelas, escolas e todos os ambientes reforçam essa romantização da maternidade. Assim, fica difícil para a sociedade pensar de forma diferente, já que foi educada sob a premissa de que ser mãe é amar o filho incondicionalmente. Nascemos em um mundo que romantiza a maternidade em tudo ao redor, fazendo com que as pessoas acreditem na crença de que o amor materno é instintivo”, observa Rafaela Schiavo.

Caminhos para a Cura e Quebra do Ciclo

Embora exista o risco de repetir esses padrões com as próximas gerações por ser a referência de vínculo aprendida, esse ciclo pode ser interrompido.

“O perdão não é o caminho necessário para a cura; talvez esse seja um pensamento mais religioso. A pessoa precisará de psicoterapia para entender que não é a causadora do mal e que não é uma pessoa ruim. É necessário reconstruir a autoestima. A psicoterapia mostra que, lamentavelmente, a pessoa foi uma vítima. Ela não precisa odiar a mãe, pois provavelmente esta também sofreu consequências que geraram esse comportamento, mas o foco deve ser cuidar da própria vida. Trabalhar com essa aceitação e, se necessário, com o distanciamento da pessoa tóxica é o que permite a recuperação, o autoamor e o autorrespeito”, comenta Rafaela Schiavo que vai além: O contato zero é a única alternativa para a saúde mental do filho quando ele decide por essa opção. Ocorre quando existe tanta agressão que o Estado precisa intervir e estabelecer esse distanciamento e esse limite de contato com a mãe. Infelizmente, caso continuem juntos, a situação pode levar até a morte. Lamentavelmente, conhecemos casos de crianças que vieram a óbito, como infanticídio, por viverem em lares muito tóxicos e perversos. Portanto, o contato zero é necessário para preservar a vida dele; não apenas a sua saúde mental, mas, muitas vezes, a própria vida.

Para Priscila Gasparini Fernandes, “O perdão não pode ser tratado como obrigação terapêutica. Existe uma pressão muito grande para que filhos perdoem rapidamente, mas nem toda ferida cicatriza dessa forma. Em muitos casos, a cura vem mais da aceitação da realidade do que do perdão em si. Aceitar significa compreender que talvez aquela mãe nunca consiga oferecer o acolhimento emocional esperado. E essa percepção, embora dolorosa, costuma ser libertadora. O filho deixa de viver tentando conquistar um amor que sempre foi condicionado. Na prática clínica, vejo muitas pessoas descobrindo pela primeira vez, já adultas, que amor não deve gerar medo constante, culpa ou sofrimento permanente. E esse entendimento costuma ser o começo de uma transformação muito importante”.

Algumas pessoas conseguem reconstruir vínculos através do perdão, enquanto outras encontram paz apenas por meio da aceitação da realidade e do distanciamento. A cura não depende necessariamente de reconciliação, mas da capacidade de deixar de viver emocionalmente presa àquela dor. Aceitar que a mãe talvez nunca ofereça o amor esperado pode ser um passo profundamente libertador, comenta Gláucia Santana.

“O mais importante é alcançar aceitação: compreender que aquela mãe talvez nunca consiga oferecer o afeto ou a validação esperada. E cabe ao filho compreender que a mãe é assim e ele não conseguirá muda-la, mas ele pode sim buscar ressignificar internamente essa história. A cura pode vir através do distanciamento emocional, da construção de novos vínculos e da interrupção do ciclo de sofrimento, mesmo sem reconciliação,  finaliza Laura Zambotto.

A terapia ajuda no processo de “reparentalização”, que significa aprender a oferecer a si mesmo aquilo que faltou emocionalmente durante a infância, como acolhimento, validação, segurança e proteção. Ao longo do processo terapêutico, a pessoa consegue compreender suas feridas, desconstruir crenças de desvalor, desenvolver autocompaixão, aprender limites saudáveis e construir relações mais seguras. Com o tempo, ela deixa de viver apenas em estado de defesa emocional e passa a desenvolver uma identidade mais livre e saudável, comenta Gláucia Santana.

Laura Zambotto fala da importância da terapia: trabalhamos algo que chamamos de “reparentalização”, que é aprender a oferecer a si mesmo aquilo que faltou emocionalmente na infância: acolhimento, validação, segurança e proteção. Isso significa reconstruir a forma como a pessoa se enxerga e se relaciona consigo mesma. Aos poucos, o paciente aprende que não precisa mais viver buscando aprovação constante ou aceitando migalhas emocionais para se sentir amado. É um processo profundo de reconstrução interna, onde o indivíduo deixa de sobreviver emocionalmente e começa, finalmente, a existir com mais autenticidade e autonomia.




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