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sexta-feira, 27 de maio de 2016

Duas famílias afetadas por um crime que chocou a cidade: autor e vítima são pais e trabalhadores

Sgto que cometeu o crime suicidou na cadeia de Pouso Alegre onde se encontrava detido
André, 38 anos, morreu assassinado pelo Sgto Ramos, 31, que suicidou em Pouso Alegre, onde estava detido.
André, 38 anos, morreu assassinado pelo Sgto Ramos, 31, que suicidou em Pouso Alegre, onde estava detido.
           Dois homens no auge da idade, com vidas profissionais distintas, esposas, filhos. Duas vidas que foram marcadas por um crime.
          Por um lado, um policial militar de méritos, com problemas que estavam afetando seu desempenho (segundo informações de amigos mais próximos).
          Por outro, um ajudante que todos os dias percorria a região fazendo entregas e que tinha pressa para chegar em casa e curtir a esposa e o filho.
          Uma discussão de trânsito, por um motivo bobo. E a fúria transformou para o resto da vida estas duas famílias que hoje choram a ausência de seus homens: esposo e pai, tio, filho, irmão.
          Não se justifica o ser humano tirar a vida de outro. Não tem perdão, não tem explicação. Os motivos poderão ser muitos. Mas para quem perde, nada mais trará de volta a presença de quem se foi. Ainda mais de forma brutal.
          Para quem comete o crime, já em situação psicológica extrema, de nada vale o arrependimento. Não existe mais o ‘e se eu tivesse pensado melhor...’. A amargura de saber que uma fúria apoderou de seu controle vai perseguir para sempre sua consciência. E a mente do homem é assim: não esquece, não apaga. Muito pelo contrário. Vai roer os pensamentos um atrás do outro, dia após dia. Porque duas vidas foram colocadas uma diante da outra. As histórias eram diferentes. Os caminhos, talvez. E esse talvez fez toda a diferença. Um se foi. Mas a história vai continuar para quem ficou.
          Conforto e perdão...só com Deus.  L.V.


Depois de três discussões, em locais e horários diferentes, um sargento da Polícia Militar de Guaxupé, que não estava em horário de trabalho, disparou sete tiros, sendo três para o chão, e outros quatro para o ajudante e vítima André Luís Godinho dos Reis, de 38 anos, natural de Passos, casado, pai de um menino, que morreu na tarde de terça-feira, 24.

A primeira discussão ocorreu às 12h50, depois que o sargento deixou os dois filhos no Colégio Dom Inácio. Segundo o tenente Nunes, na coletiva de imprensa às 19h de terça-feira, o sargento abriu a porta do carro e, por distração, interferiu na passagem de um caminhão que trafegava pela Av. Dona Floriana. Houve um desentendimento entre os dois caminhoneiros e o militar, que alega que foi ofendido com palavras de baixo calão pelo caminhoneiro  Flávio de Jesus Batista, 36, e o ajudante André. Mesmo assim, o sgto. admitiu que estava errado, em relação ao trânsito, e fez gestos com palma de mão, indicando que estava tudo resolvido. Porém, o militar argumenta que os dois envolvidos entenderam o gesto como ato obsceno e ofensa.

O sargento retornou para casa e, aproximadamente, uma hora depois encontrou os dois caminhoneiros em um bairro rural próximo ao Japy. Segundo o tenente Nunes foi uma coincidência, mas não foi justificado o motivo que levou o militar àquele local. Ele não estava em horário de trabalho e, portanto, sem uniforme policial. A discussão evoluiu, sem ter chegado a agressões físicas.

Por volta das 15h, o caminhoneiro e o ajudante fariam uma entrega no São João Supermercados. Houve então o terceiro encontro. A justificativa do sargento, durante depoimento policial, é que houve mais uma coincidência. Ele tinha ido fazer compras no supermercado, que tem entrada pela Av. Dona Floriana. Os dois caminhoneiros estavam na rua transversal, onde ocorrem as entregas. Uma testemunha, que não quis se identificar, diz que o sargento foi até o caminhão para tirar fotos do veículo e dos dois envolvidos.
Houve então mais discussões verbais. Segundo o assessor de comunicação Tenente Nunes, os dois caminhoneiros foram ao encontro do militar para agredi-lo. Nesse momento, o sargento revelou que era da Polícia e exigiu obediência. Assim que os caminhoneiros perceberam que ele estava armado, ambos recuaram. Foi quando o militar deu três tiros para o chão e outros três em direção aos caminhoneiros. Um (ou mais disparos) atingiu a parte superior do braço do ajudante André, que faleceu pouco tempo depois.

As três discussões, em locais diferentes, aconteceram no intervalo de 12h50 às 15h15. O sargento, que não teve o nome divulgado na coletiva de imprensa, usou arma particular, um revólver calibre 38, e se entregou espontaneamente.
Policial exemplar com 18 prêmios

Segundo o tenente Nunes, o sargento não apresentava problemas de saúde ou emocional, tanto é que estava trabalhando normalmente. Ele entrou para a corporação militar em 2007 e nesses nove anos conquistou 18 premiações (distintas) por bons serviços realizados atingiu o conceito máximo na escala policial, A-50, e chegou a sargento.

No momento da coletiva de imprensa estava sendo realizado o boletim de ocorrência, REDs. O caso será encaminhado para a Polícia Civil e analisado. Por enquanto, não é caracterizado como crime militar. As duas partes envolvidas, sargento e caminhoneiro, entre outras testemunhas serão ouvidas.

Depoimento do motorista contradiz versão policial

Na manhã de quarta-feira, 25, o motorista Flávio de Jesus Batista concedeu entrevista à uma rádio de Passos e apresentou uma versão diferente da coletiva de imprensa concedida pelo Tenente Nunes na noite anterior.

Na Av. Dona Floriana, em frente à escola, Flávio diz que o sargento fez gestos obscenos para os motoristas e seguiu o caminhão, a pé, mantendo a porta do carro aberta. O ajudante André desceu para conversar com o militar, enquanto Flávio estacionou. Quando André disse que o caminhão arrancaria a porta do carro se estivesse em velocidade, o sargento se irritou e disse: “Você vai me ensinar a dirigir na minha cidade?”

No momento em que Flávio tentou apaziguar o ânimo dos dois, o sargento se irritou novamente e disse: “Não ponha a mão em mim”.

O tenente acrescentou que houve um segundo encontro, casual e por coincidência, num bairro rural e próximo ao Japy. Na entrevista, Flávio não citou esse encontro e disse que os três voltaram a se encontrar, aproximadamente, quatro horas depois, em uma das ruas do São João Supermercado, onde os tinham feito uma entrega e já estavam de saída, mas lembraram que deveriam pegar a nota fiscal.

Ao olhar para o retrovisor, Flávio viu que o sargento se aproximava do caminhão, tirando fotos e usando o celular. O militar chegou até a traseira do veículo, que estava ligado. Nisso, o ajudante André desceu e conversou com o sargento que a discussão anterior, próximo ao colégio, foi um equívoco e sugeriu “Larga mão disso”, na tentativa de encerrar o conflito.
Segundo Flávio, o sargento admitiu que estava sim apontando o dedo, com sinal obsceno, para os dois. E já sacou a arma.
Flávio conta que colocou a mão na cabeça e pediu que parassem com aquilo. O caminhoneiro gritou com André, lembrando que ele tinha família. O sargento continuou com o celular ligado e ameaçou os dois: “Se chegar mais perto de mim eu mato.” Flávio se afastou, sem saber ainda que se tratava de um sargento.

O bate-boca continuou e o sargento determinou: “Você tá chamando a polícia pra mim. Eu sou policial. Se alguém chamar a polícia, eu mato todo mundo aqui”. André passou a usar o celular e gravar o sargento armado e fazendo ameaças. Ele se irritou mais ainda e, armado, reforçou a ameaça: “Você tá me gravando, não tem amor na vida, não?”

Atirou para matar
Assim que o militar virou de costas, Flávio foi puxando André e o afastando-o.  Mas o sargento virou de forma rápida, apontou a arma e disse: “Vou te mostrar quem manda na minha cidade”. E foram disparados sete tiros, segundo Flávio.

Na coletiva, o tenente falou inicialmente em cinco tiros, depois disse que eram seis. Também foi mencionado na coletiva que três tiros foram direcionados ao chão.

Flávio afirmou, em entrevista e também em depoimento na polícia, que foram sete disparos. O primeiro acertou a perna de André, o segundo o ombro. A vítima caiu e o osso do braço se partiu. Com André caído, o sargento tentou um terceiro tiro, na cabeça, mas o disparou não se efetivou. O militar então foi em direção ao seu carro. Flávio foi atrás para anotar a placa, e o sargento atirou mais duas vezes, sem ter acertado o motorista.

Para o motorista, o encontro no supermercado não foi coincidência, como foi sugerido pelo tenente. Flávio acredita que os dois estavam sendo perseguidos. “Por que ele estava com uma arma no bolso?”, questiona Flávio, que negou ter se atirado para cima do sargento após os primeiros disparos.

Com o celular, André filmou uma parte das ameaças do sargento e, talvez, até o disparo. O celular foi apreendido pelo delegado regional da Polícia Civil de Guaxupé. 

Suicídio
Na madrugada de sexta-feira, o policial militar Sgto Fabiano Gabriel Ramos, 31 anos, casado, pai de dois filhos, cometeu suicídio dentro da cela onde se encontrava detido, em Pouso Alegre. Há suspeitas de que o militar tenha se enforcado com uma blusa amarrada a um beliche.

Amigos mais próximos do policial afirmam categoricamente que o mesmo se encontrava com problemas psicológicos e não estava em condições de trabalhar. Apesar dos vários tiros disparados contra o ajudante de caminhoneiro, o que não justifica tê-lo matado de forma tão brutal, por outro lado, a atitude demonstrou que realmente o policial não estava em equilíbrio emocional.. 

 

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