Guaxupé, quarta-feira, 12 de dezembro de 2018
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terça-feira, 13 de novembro de 2018

Um homem de bem com a vida

Antes de morar em Guaxupé, Miguel Abrão ajudou a articular a emancipação de Juruaia, em 1944.
Miguel Abrão, primogênito de Abílio e Nasta Abrão, nasceu em Muzambinho, dia 07 de novembro de 1918. Os pais, imigrantes sírio-libaneses, tinham uma venda de secos e molhados. “Papai perdeu tudo no jogo de ‘búzios de gamelão’. Para afastá-lo do vício, mamãe decidiu morar no Patrimônio, zona rural, onde não havia água, nem luz, só duas casas, a nossa e a do Antônio Tomaz”, relata Miguel.
 
Uma das histórias do pai, de quando ainda era solteiro e mascate: “Ele foi pedir refeição na propriedade de Américo Costa, conquistando a amizade do fazendeiro, que punha todo mundo pra correr dando chicotadas de vara de tatu. Abílio era o único vendedor com permissão para entrar na fazenda.”
 
Aos 3 anos e meio mudou-se para o Patrimônio, junto com os pais e o irmão Latif. Outros 8 irmãos nasceram na roça. Miguel e Latif trabalhavam no plantio de algodão ou matando formigas, faziam qualquer serviço para ajudar na economia doméstica. O pai administrava uma pequena venda onde a mãe comercializava seus pães caseiros: “A vida era muito dura.”
 
Dos 12 aos 14 morou com o avô Salomão João, em Muzambinho, estudando no Grupo Escolar Padre Florentino. Nesses dois anos, aprendeu o ofício de sapateiro com o italiano Antônio Granato, que possuía uma sapataria na cidade, mas não seguiu na profissão.
 
Retornou ao Patrimônio, pois o avô se mudara para São Paulo e o pai não tinha como sustentar seus estudos na cidade. No aniversário de 16 anos, em 1934, a mãe escutou uma conversa entre ele e o amigo Benjamin Antônio (a casa era pequena, tinha apenas 3 quartos para 10 filhos). Falavam da vontade de conseguir um trabalho melhor. “No dia seguinte, meu pai veio saber por que a gente queria ir embora da roça. Expliquei que gostaríamos de morar em Barra Mansa, distrito de Muzambinho na época, para tentar melhorar de vida”, conta.
 
Seo Abílio conseguiu para seu primogênito 1 conto e 500 réis obtidos na venda de umas vacas. O pai de Benjamin também entregou ao filho a mesma quantia. Em Barra Mansa, compraram um ponto comercial onde funcionava uma venda e um açougue ao lado, por 3 contos de réis mais 12 parcelas mensais de 1 conto.
 
Ainda recém chegado à cidade, o amigo Bonifácio Miguel o convidou para um baile no bairro da Mocoquinha. Chegando lá, não tinha sanfoneiro: “Alguém falou que eu sabia tocar sanfona de 8 baixos. Toquei e todo mundo ficou dançando. Um cara pediu que eu parasse porque levou tábua de uma moça. Como não parei, ele furou a sanfona com uma faca. Nunca mais toquei, nem por brincadeira.”
 
Nos finais de semana, os dois sócios matavam de 5 a 6 capados no açougue, carregavam as carnes nas costas até as casas dos fregueses. Numa ocasião, Miguel ouviu seu companheiro, que estava na venda, ser ameaçado. Armado com a tranca da porta entrou pela porta dos fundos e conseguiu tirar a faca das mãos do sujeito. “Benjamin bateu muito nele, que ficou ferido e desapareceu. Nós dois fomos levados para a delegacia. A gente era estranho, numa terra estranha, o delegado não gostava de sírios, para ele nós éramos os bandidos. Jorge Calil, respeitado na cidade, ajudou a nos libertar. Soubemos que o agressor de Benjamin fazia seus desafetos beberem pinga com fumo dentro, à força. Passamos a andar armados. Um dia, tocando os porcos a pé, porque não existiam caminhões, o mesmo sujeito nos abordou na estrada e pediu desculpas ao meu sócio. Ficaram tão amigos, que Benjamin foi padrinho de 5 filhos dele. Acabou a bandidagem, ficamos queridos por lá. A gente era sempre convidado a comer nas casas dos amigos”, recorda.
 
Assim, foram prosperando. No 3º ano, Miguel buscou o irmão Latif para trabalhar com ele. No 6º foi a vez do Jorge. Após 5 anos, Miguel e Benjamim separaram a sociedade: Benjamim comprou a loja do Antônio Calil; Miguel, a casa e a loja de Jorge Calil, no centro da cidade. Nessa época, toda a família passou a viver em Barra Mansa. “Minha maior realização foi ajudar meus irmãos, oferecer uma vida mais decente aos meus pais. Nunca medi esforços, se eles ficassem bem, eu também ficaria”, afirma.
 
Junto com Benjamin e um grupo de amigos liderados por Eduardo Senedese começaram a articular a independência do distrito, em 1942. “Éramos nove, hoje só eu estou vivo. Viajamos três vezes a Belo Horizonte para conversar com Juscelino Kubitschek, fomos muito bem recebidos. Eduardo comandava e a gente acompanhava, a turma de caipiras de Barra Mansa”, informa.
 
Em 1944 conseguiram a emancipação, o município ganhou o nome de Juruaia. Vários comerciantes de Guaxupé doaram bancos para a praça da nova cidade: Marcelino Rivera, Abrão Farah, Jacob Miguel Sabbag e outros: “Dias atrás, veio um secretário do prefeito de Juruaia tentar conseguir apoio financeiro dos mesmos para reformar esses bancos. Expliquei que todos haviam morrido, tanto os que pediram os patrocínios quanto os que contribuíram.”
 
Dois casamentos
Durante a 2ª Guerra, Latif foi convocado para servir a FEB – Força Expedicionária Brasileira: “Recebemos uma carta dele explicando que, se eu me casasse, ele se tornaria o responsável pela família, sendo liberado do Exército. Uma turma de amigos se reunia todas as noites na casa do tio Miguel, para jogar bingo. Jorge Calil falou que não seria difícil encontrar uma esposa entre tantas moças bonitas presentes na sala. Cheguei a ficar noivo da Ínes Abrão, mas meu irmão enviou nova correspondência dizendo que não haveria mais dispensa por ele ser arrimo, então rompi o noivado”, conta.
 
Ficou dois anos sem passar na porta da casa da moça. Um dia, dançando com Anésia, irmã mais nova da ex-noiva, Miguel a pediu em casamento: “Ela falou que eu não teria coragem de conversar com o pai, depois do rompimento com a irmã. Respondi que por ela, eu faria.” Como sabia que Miguel Abrão (da família Calil) era muito bravo, pediu para Jorge e Abrão Calil intercederem em seu favor. “Em princípio, ele não gostou. Mas como eu tinha uma boa situação financeira, acabou aceitando. Eduardo Senedese e eu éramos os únicos proprietários de carro em Juruaia”, revela.

O casamento aconteceu em 1948; em 1950 Anésia faleceu de leucemia: “Fiquei com Sônia, nossa filha de 1 ano, para criar. Fui pai e mãe dela. Ainda bem que minha mãe morava por perto e me ajudou.”
 
Em 1951, dona Nasta foi ao casamento de um parente, no sul do Paraná, onde conheceu uma moça pela qual ficou “apaixonada”: “Voltou de viagem afirmando que ela fazia meu pique, que eu deveria me casar com ela.” No ano seguinte Miguel viajou até o Paraná, ficando noivo de Carmen Elias (Carime). Casaram-se em 1953, em Ponta Grossa. Depois de morarem 2 anos em Juruaia, mudaram-se para Guaxupé: “Construí um prédio de 2 andares no início do Taboão, onde era a loja e a casa do Jorge Nassif.”

Moravam no andar superior, sobre a loja Barulho dos Retalhos, que vendia tecidos por quilo. Nessa época, além de Sônia, ele e Carime tinham mais 3 filhos: Edson, Silvana e Claiton. Por volta de 1959 adquiriu um imóvel do Jamil Nasser, na Avenida Conde Ribeiro do Valle, inaugurando mais um estabelecimento comercial, a Miguel Abrão e Irmãos, mas continuou com a loja de retalhos.
 
Em meados da década de 60, recebeu a visita do Dr. Geraldo de Souza Ribeiro e Jamil Nasser, presidente e vice-presidente do Rotary Clube, respectivamente, convidando Miguel a ingressar na instituição: “É uma sociedade muito boa porque as mulheres participam de tudo. Se não fosse o Rotary, a gente não tinha mais reunião de família e de amigos. Toda pessoa mais velha deve participar de uma associação, fazer parte de um grupo, trocar idéias.”
 
Quando Benedito Leite, colega rotariano, foi presidente da Associação Comercial (ACIG), Miguel foi seu vice. Nesse período, receberam ofício pedindo um espaço adequado para sede do INPS, se não fosse possível, a instituição seria implantada em Muzambinho. “Benedito achou que seria uma vergonha não oferecermos um local. Como eu estava construindo uma nova residência para minha família, disse que cederia meu prédio se tivesse 60 dias para desocupá-lo. O governo aceitou minha proposta, mas não cumpriu o prazo, precisamos fazer a mudança às pressas para não perder o INPS. Até hoje tem coisa que não terminei em casa.”
 
Desta forma, encerrou as atividades da loja de retalhos. A Miguel Abrão e Irmãos passou a denominar-se Loja Nova, comércio de tecidos no atacado e varejo. Em 1982, um grande incêndio que começou no Supermercado Pag Leve destruiu todo o estoque da loja: “As mercadorias que não foram queimadas, roubaram, e o seguro não pagou o prejuízo.” Com o fechamento dessa empresa, em 87, Miguel passou a trabalhar na Fast Foto, do filho Claiton, mesmo estando aposentado desde 78.
 
Também foi vice-presidente da Sociedade Esportiva de Guaxupé, por 4 anos, na presidência do Glênio Rondinelli. “O técnico do time alugou um imóvel meu. Só tive prejuízo, ele fugiu, sem pagar as mensalidades atrasadas, roubando até o boxe do banheiro”, revela.
 
Atualmente, próximo dos 90 anos, seo Miguel dirige diariamente seu carro até a loja onde trabalha. Mora com a esposa e a filha Silvana, mas sua casa está sempre movimentada com a visita de parentes, amigos, filhos, genro, noras, 8 netos e 4 bisnetos: “Fico muito orgulhoso, todos que ajudei estão melhor do que eu.”
 
Sheila Saad, www.papodeviralata.blogspot.com
 

Confira a Galeria de Fotos

Recebendo o título de Pai do Ano, do presidente do Rotary, José Maria Jacob. Bodas de Ouro, rodeados por netos e bisnetos. Na comemoração das Bodas de Ouro, com os filhos, o genro Hélio e as noras Mônica e Michali. Em 8.11.1970, na Associação Comércio e Indústria de Guaxupé. 1)	Bodas de Prata, na Catedral, em 1978. Do lado esquerdo de Miguel, a mãe Nasta e Sônia, com marido e filhos; ao lado direito de Carime, a sogra Georgina e os filhos Silvana e Claiton.

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