Guaxupé, terça-feira, 17 de julho de 2018
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sexta-feira, 6 de abril de 2018

Glorinha Casarejos, mineira com sangue baiano, uma mulher que luta em defesa das suas paixões.

Entrevista publicada em novembro de 2014
Maria da Glória Coelho Casarejos nasceu em Guaxupé, em 18.10.38, terceira filha de Iracema (Nascima) Elias Coelho e Anísio Rodrigues Coelho. Irmã de Fábio, Solina e Sara. Há mais de quarenta anos, quatro vezes por semana, Glorinha recebe Pai João, uma entidade espiritual, da corrente dos pretos velhos, oferecendo palavras de conforto àqueles que a procuram. Também, foi uma das primeiras mulheres guaxupeanas a ocupar o cargo de vereadora. Ela sente orgulho de dizer que em suas veias corre sangue baiano, não foge à luta quando se trata de defender suas paixões. E o futebol é uma delas.
 
“Meu pai era militar, veio da Bahia para lutar ao lado de São Paulo na Revolução de 1930. No final, entrou para a PM de Minas e acabou destacado para nossa região. Conheceu mamãe em Guaxupé. Ela havia emigrado do Líbano com a família. Nasci na casa dos meus pais, na Rua Coronel Sertório Leão.
 
Papai era um homem muito sério, em casa, o regime era quase militar. A cozinha da minha mãe tinha um fogão à lenha no centro. Toda sexta-feira, meu pai trazia uma cesta de vime cheia de carnes do açougue do seo Inocêncio Borges. Não havia geladeira, ele temperava as carnes nas gamelas, cobria com vinho e temperos à moda baiana. Sábado, meus irmãos e eu levávamos uma tigela do que ele preparava, como rabada, suã ou feijoada, para os vizinhos: seo Domingos Acorinte, Boanerges Guimarães (telegrafista da cadeia), Tonico Guerra, entre outros.
 
Também pescava com meu pai no rio Guaxupé, na região do Bebedouro, em frente ao armazém do Brás Ricciardi. Em nossa horta, tínhamos uma criação de minhocas. Eu levava o embornal com as iscas e as colocava no anzol para o papai. O rio não era sujo como hoje em dia, havia muitos peixes.
 
Atrás da Polenghi, o rio formava uma lagoinha, onde aconteciam os batismos do Pentecostes. Os participantes usavam roupas brancas, tocavam e cantavam hinos. Com minhas amigas Maria Luíza e Líbia Celani, eu ficava no alto do morrinho assistindo à cerimônia. Achava aquilo uma maravilha.
 
Fábio e eu éramos inseparáveis. A gente adorava roubar as frutas do seo Jacob Sabbag. Enquanto ele ia buscar as verduras que mamãe nos mandava comprar, nós dois aproveitávamos para pegar, escondido, uvas e peras. Uma vez, na chácara dos Ricciardi, onde se vendia mel, meu irmão resolveu roubar um favo da colmeia, que estava meio caído. Quando ele puxou, as abelhas caíram em cima dele. Eu saí correndo, ele ficou com a cara inchada de tantas picadas.
 
Eu ainda não tinha nove anos quando meu pai morreu, depois de ficar um ano internado no hospital militar de BH, onde foi sepultado. Minha irmã Solina ficou com ele. Mamãe se juntou a ela quando soube que papai estava mal. Minha tia-avó, Joana, aproveitando a ausência da nossa mãe, tingiu todas nossas roupas de preto, em sinal de luto fechado. Minha mãe ficou muito brava, depois de um tempo, queimou todas essas roupas.
 
Tia Nair morava na esquina da Praça do Rosário. Ela costurava e vendia frutas colhidas do seu pomar. Se a gente pedia uma manga, ela nos dava as mais feias. A gente esperava ela sair, pulava a janela da casa e roubava as frutas mais bonitas. Chupávamos as mangas com gosto, escondidos pelas moitas da praça.
 
Até os catorze anos, frequentei a igreja síria com mamãe e tia Joana. Após as missas de Páscoa, aconteciam ceias muito fartas. Cada família levava um prato sírio, salgado ou doce, era bom demais.
 
Sempre travessa
Aos sete anos, entrei no Grupo Delfim Moreira. Todos meus irmãos estudaram lá. Existia uma rivalidade entre meus colegas e os alunos do Grupo Barão de Guaxupé, que funcionava no antigo Hotel Central. A gente dizia que nosso uniforme era mais bonito e não passava no mesmo passeio que um aluno da outra escola, senão, saía briga, com direito à reguada e maletada. Muitas vezes, mamãe me deixou de castigo por uma alça de maleta arrebentada ou régua quebrada.
 
Em 1949, comecei a estudar, à noite, na academia, onde fiquei até tirar o diploma de contadora. A gravata do nosso uniforme era bordada com as iniciais da escola: ETC – Escola Técnica de Comércio São José. Na minha formatura, em dezembro de 1957, Santiago Dantas, um grande político e patrono da academia, entregou meu diploma ao lado do diretor José Gonela.
 
Quando eu voltava da escola, subia a Rua Aparecida com minhas colegas Celina Dallora, Wanda e Wilma Souza. Tinha um senhor chamado Mané Gato, que usava chapéu de almirante e medalhas no peito. Ele ficava na esquina dessa rua, esperando pelas moças. A gente tinha medo dele e eu adorava aprontar com minhas amigas. Ao passar por ele, eu mais à frente, imitava o miado de um gato. Ele ficava muito bravo, saía correndo atrás de nós.
 
Cheguei a perder um pé de sapato, numa dessas corridas. Mas nem voltei para buscar, não valia a pena, pois estava furado. Eu passava tinta para disfarçar o pedaço de papelão que colocava na sola para cobrir o furo.
 
Sábados e domingos, das 19h30 às 21h30, minhas amigas e eu passeávamos no jardim do coreto, que a gente chamava ‘jardim de cima’. Minha mãe comprava tecido na loja do Brás e mandava a costureira fazer vestidos para mim. Wanda e Celina, que usavam flores de pano no ombro, roupas de laise e sapatos de verniz, zombavam: Maria da Glória, olha seu par de jarros. Sempre havia outras moças usando vestidos do mesmo paninho. Eu nem dava bola, achava que estava abafando.
 
Às vezes, aos domingos, eu podia ir às brincadeiras dançantes da Associação Atlética. José Marques era o cantor predileto da turma, estava sempre lá. Em diversas ocasiões, minhas amigas tomaram chá de cadeira enquanto o vestido de paninho desfilava pelo salão, sem perder uma contradança.
 
Parceira da mãe
Mamãe lavava roupas finas pra fora, para complementar a aposentadoria do papai. Como ele morreu na ativa, sua aposentadoria não era integral. Eu entregava as roupas nas casas das freguesas. Muitas vezes precisei levar roupas de volta por causa de um amassadinho.
 
Aos onze anos, ao passar por Mário Graça, que estava na porta da cooperativa de consumo, ele me perguntou: Menina bonita, de quem você é filha? Eu respondi e perguntei se ele sabia de algum emprego para mim. Queria que mamãe parasse de lavar roupas.
 
Ele perguntou se eu estudava, respondi que estava no 1º básico da academia. Então, ele me arrumou um serviço naquela cooperativa. Trabalhei como auxiliar da contadora Maria Eunice Camargo. Depois, passei a fazer de tudo. Fiquei três anos nesse emprego, amo o Mário Graça de paixão.
 
Um dia, estava lavando a frente da loja, na Rua Aparecida, quando seo Otávio Araújo, que estava a caminho da barbearia do seo Vicente, também me perguntou de quem eu era filha. Disse que foi amigo do meu pai e continuava muito amigo da minha mãe. Perguntou se eu gostaria de trabalhar na Drogasil. Ele foi meu padrinho, fui contratada logo que completei catorze anos. Éramos dezoito funcionários. Seo Paschoal Vômero me tratava como filha. Comecei no caixa e ia passar a subgerente, depois de onze anos nesse emprego.
 
Nos dois últimos anos, depois que eu saía da Drogasil, às 18h, ficava na bilheteria do Cine São Carlos, auxiliando seo Pasqual Simone. Eu e outra bilheteira, Teresa Semensato, ganhávamos uns trocados e ingressos para as sessões de cinema.
 
Certa noite, Romãozinho (Ramon) Casarejos, nessa época, representante de vendas da Kolynos, me procurou pedindo que eu desse um recado ao meu cunhado, José Gurgel Fernandes, casado com Sara.
 
Quando Ramon retornou à Guaxupé, parou seu carro na porta do cinema e me ofereceu carona. Não quis aceitar de jeito nenhum, achei que ele era casado. Ele achou graça, dizendo que era solteiro e me acompanhou a pé, até em casa.
 
Ele voltou na Festa das Orquídeas, trazendo vários presentes para mim. Naquele tempo, eram quatro dias de festa. Eu fui somente ao baile da sexta. Ele foi me apanhar em casa, todo de branco. Coincidentemente, eu também usava um vestido da mesma cor, com decote atrás, do jeito que eu gostava. Meu cabelo foi penteado pela Norma Azzi, a cabeleireira do salão situado no Palácio das Águias, em cima da sapataria do seo Heitor Azzi.
 
Espiritualidade e política
Ramon e eu nos casamos em 1963, após um ano e seis meses de namoro. Ele pediu que eu parasse de trabalhar, então, pedi demissão da Drogasil. Nessa época, fiquei cuidando da casa e dos filhos. Em novembro de 1964, nasceu nosso primogênito, Ramon Casarejos Neto. Em março de 1967, veio Rita de Cássia. E Flávia, em junho de 1972.

Pouco antes de engravidar da caçula, fui obrigada a desenvolver minha mediunidade. Até então, sempre fui católica, mas descobri que poderia conciliar as duas crenças. Por força das circunstâncias, procurei um terreiro de umbanda para tomar um passe. Lá, me disseram que deveria fazer trabalhos espirituais incorporando uma entidade, o Pai João. Por intermédio dele, passei a oferecer palavras de conforto a quem me procurasse.

Quando o terreiro fechou, comecei a atender em casa. Meu marido me apoiou, totalmente. Com a permissão de Deus, pretendo continuar fazendo esse trabalho até o fim da minha vida. A espiritualidade nos prende a muitas coisas boas, nos mostra o verdadeiro caminho.
 
Minha mãe contava que eu manifestei minha mediunidade aos quatro anos. Ela sofria muito por causa de varizes. Às vezes, eu descia até o quintal, apanhava folhas de laranjeira e fazia uma oração sobre as lesões causadas pela doença. Aí, ela dormia tranquilamente o resto da noite.
 
Sempre gostei de fazer trabalho social voluntário. Ajudei o Aníbal Zeitune nas quermesses anuais que aconteciam no bairro Santa Cruz. Ramon e eu doamos uma TV para a Nossa Creche. Angariei contribuições para as crianças do PLAM, que funcionava atrás da igreja e atendia crianças até os dez anos. Por meu marido, fiz uma promessa a São Judas Tadeu e fui atendida. Cumpri a promessa de ir a pé da minha casa até a igreja durante dois anos.
 
Por quase dez anos, ajudei os moradores da Vila Vicentina, no horário que fosse preciso. Cortava cabelo, fazia barba, levava para o hospital, organizava festas juninas e os terços de Natal. Após o terço, junto com meu marido, preparava uma ceia para os moradores.
 
Quando Zeitune foi eleito prefeito, em 89, ele me convidou para trabalhar na assistência social. Até então, esse cargo não existia. Fiz esse trabalho até o final da gestão do Totonho, em 1996. Durante esse período, participei do Conselho de Assistência Social, primeiro como vice, depois, presidente, durante a 1ª gestão do Dr. Heber.
 
Paralelamente, de 92 a 96, fui vereadora, eleita pelo PMDB. Meu marido também era filiado a esse partido. Fui reeleita para um novo mandato, finalizando em 2000. A 1ª vereadora de Guaxupé foi Zoá Teixeira. Olga Gamero e eu fomos as segundas. Eu fui a 1ª secretária da Câmara.
 
Saí candidata nas eleições de 2000 e 2004, mas não ganhei. Continuo filiada ao PMDB, ajudo meu partido no que for preciso. Mas estou decepcionada com política, não quero mais concorrer a cargos públicos.
 
Torço para o São Paulo Futebol Clube, desde 1957. No Rio, eu era tricolor. Passei diversas férias na casa do meu irmão. Ele morava perto da sede do Fluminense. Assisti a muitas partidas FlaFlu no Maracanã. Meu sonho é ver o São Paulo, no Morumbi.”
Glorinha perdeu o marido vinte dias após ser reeleita, em 1996. Amparada pela espiritualidade, ela não deixou a peteca cair. Atualmente, diz ser uma mulher realizada, adora seus filhos e os quatro netos: Maurício e Ana Júlia, da Rita; Ramon Filho e Isabella, do Ramon. Tem muitos amigos e, na casa onde vive com a filha caçula, está rodeada por criações, outra grande paixão.

Confira a Galeria de Fotos

Glorinha corta o bolo do aniversário de 17 anos, ao lado da mãe (à direita). 4)	Em 21.12.63, na Catedral, casamento com Romãozinho Casarejos.

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