Guaxupé, quinta-feira, 20 de setembro de 2018
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segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Um profissional em extinção

Entrevista publicada em junho de 2011
João Chueiri, desde criança, chamado Dino, nasceu em 6 de março de 1925, na esquina da Rua Francisco Vieira do Valle com Aparecida. Um dos onze filhos de Roger Chueiri e Salima Assad Chueiri e irmão de Felício, Cecília, Suraia, Deud, Isabel, Salomão, Adélia, Farid, Iolanda e Orlando. Destes, somente o caçula e Dino estão vivos. Ambos dividem a casa herdada dos pais, onde Orlando mora e Dino trabalha na oficina de funilaria que conserva “do mesmo jeitinho” que o pai deixou, fazendo pequenos serviços. Tem dias que ele conserta mais de dez panelas de pressão. Muitos fregueses vêm de municípios vizinhos, como Monte Belo, indicando que, dificilmente, tenha outros profissionais do ramo na região. Na sua oficina, é possível encontrar raladores de metal, em tamanho grande, com orifícios produzidos artesanalmente, desiguais, ícones de um estilo incomum nos tempos atuais.
 
“Meus pais vieram de Beirute. Foram seis meses de viagem num navio cargueiro, que tinha até matadouro. Eles foram pioneiros em Guaxupé, chegaram em 1910, com uma turma de imigrantes, como seo Antônio Miguel Sayeg, pai do Tufi. Meu pai contava que ainda não havia estação, apenas um passeio para descer do trem. A cidade era iluminada por lampiões a gás. Onde é o posto do Ildo Bufoni (Maga) havia um bordel. À noite, quando se ouvia um tiro, sabiam que na manhã seguinte encontrariam um defunto na porta. Naquela época, não tinha muita diversão, só mulheres e pinga. Eles fechavam o tempo nesse lugar.
 
Fui batizado na Igreja Ortodoxa. Meu pai ajudava o padre José Elias a celebrar as missas, que eram cantadas, e eu ia junto. Na casa onde nasci meu pai tinha uma funilaria, ele trabalhava com folhas de alumínio, cobre e metal, fazendo alambique de pinga, lamparina, panela, tacho, balde, regador... Sustentou toda a família com esse ofício.
 
Com cinco anos eu já puxava a forja pra esquentar o soldador. Meus irmãos e eu ficávamos na oficina, em volta do nosso pai. Só Farid e Orlando não quiseram seguir a mesma profissão. Um passou no concurso do Banco do Brasil e, o outro, trabalhou a vida inteira na Ótica Jussara.
 
A Rua Aparecida não tinha nada, as casas eram espaçadas, uma longe da outra. Depois que colocaram o calçamento de pedras, não recordo a data, começou a melhorar. No fim da nossa rua havia três porteiras, uma do sítio do Manoel Machado e, as outras duas, de pastos, onde eu jogava futebol com a molecada da vizinhança. A gente pegava muito carrapato, dava um trabalhão pra nossa mãe. Ela era dona de casa e minhas irmãs a ajudavam. Elas só saíram de casa para se casar.
 
Aos sete anos, entrei na primeira turma do Grupo Barão de Guaxupé, que começou funcionando no antigo Hotel Central. No último ano, passamos para uma sala da Academia, que o professor Gonella (José) emprestou para o grupo, pois o número de alunos havia aumentado muito.
 
Minha primeira professora foi dona Olga Mancini. Em seguida, dona Olinda Ferreira. Aprendi, mesmo, com dona Lula Silva, professora do 3º e 4º anos. Ela gostava muito de mim, era o dodói dela. Eu levava os recados para as professoras e comprava coisas pra ela na venda.
Em 1936, recebi o diploma do primário. Depois, fiquei uns dois anos sem estudar, só ajudando meu pai na oficina. Por volta dos catorze, comecei a namorar minha vizinha, Leila Rachid. Como ela estudava, resolvi voltar a estudar junto com ela, na Academia de Comércio São José. Nós dois éramos os primeiros alunos da classe.
 
De cavaleiro a cavalheiro
Aos vinte anos, interrompi, novamente, meus estudos. Fui chamado para servir o exército na cavalaria de Três Corações, onde fiquei por um ano e meio. Escapei por um triz de ser expedicionário, pois quando fui convocado, a guerra havia terminado. Até então, nunca tinha andado a cavalo. No começo, tive medo, mas fui obrigado a fazer tudo que eles mandavam, para poder ser dispensado.
 
Voltei no começo de 1947. No mesmo ano, retomei os estudos. Leila também havia parado de estudar para me esperar. Continuamos na mesma sala. Nossa formatura aconteceu em janeiro de 1950. Guardo meu diploma de contador, onde está registrada minha nota, 9,7. Neusa Rodrigues e eu formamos com as melhores notas.
 
Durante dois anos, juntei dinheiro para comprar uma casa na mesma rua dos meus pais. Só depois que comprei os móveis, Leila e eu nos casamos, em novembro de 1952. A gente saía muito para se distrair, não perdia nada: cinema, baile, circo, viagens. Ela gostava muito dos bailes que aconteciam uma vez por mês no Clube Guaxupé, o ano inteirinho. Eu sempre comprava um vestido novo para Leila usar nessas ocasiões. A gente viajava sempre, para Santos, Aparecida do Norte, São Paulo, Campinas, Ribeirão Preto.
 
Minha mulher teve dificuldades para engravidar. Somente em 1961, após um longo tratamento, nasceu nossa primeira filha, Maria Aristene. No ano seguinte, Maria Regina. O parto dela foi complicado, por causa da diabete de Leila. O médico, Dr. Geraldo Souza Ribeiro, fez questão de ser padrinho da nossa segunda filha.
 
Depois que as meninas nasceram, ficamos mais sossegados. Somente em 1968, quando comprei um Fusca, voltamos a viajar. Levamos nossas filhas para conhecerem várias cidades da região.
 
No meu ofício, graças a Deus, nunca faltou serviço. Meu pai faleceu em 71, minha mãe, no mesmo ano, dez meses depois. Eles eram muito ligados, ela não aguentou a ausência dele. Acabei ficando sozinho na oficina. Felício montou uma serralheria e o Deud foi trabalhar como taxista, em Poços de Caldas.
 
Em cima do telhado
Quando estavam construindo a Catedral, não me lembro o ano, a pedido do Monsenhor Hermínio, doei um dia de serviço para ajudar a colocar as calhas no telhado. Muitos profissionais fizeram o mesmo. A construção da igreja demorou muito anos, começou na gestão de Dom Hugo Bressane, passou por Dom Inácio e terminou com Dom José Alberto Castro Pinto, que completou a escadaria e comprou o sino novo.
 
No meu ofício, subi em muitos telhados. Fazia calhas, na oficina, e as colocava nas residências. Hoje em dia, não faço mais esse serviço, tenho medo. Sou sozinho, se quebrar um braço ou uma perna, como é que eu faço?
 
Além de calhas, outro serviço que fazia muito era encanamento, agora o nome correto é instalação hidráulica. Trabalhei pra Polenghi, Santa Casa, colégio das freiras. Os fazendeiros eram todos meus fregueses. Emendei muito cano no meio do mato e do brejo, onde fosse preciso.
 
Minha esposa faleceu em 1983, em decorrência de complicações da diabete. Maria Aristene já estava casada. Maria Regina se casou um ano depois. Fiquei morando sozinho, desde então. Também diminuí o ritmo de serviço.
 
Em 1990, me aposentei, mas continuei trabalhando. A oficina continua do mesmo jeitinho que meu pai deixou. Faço serviços diversos, o que dá pra fazer. Se não aparece freguês, limpo uma ferramenta, vou inventando coisas para passar o tempo. Ou fico quietinho, na porta, vendo o movimento. A gente ganha pouco, mas vai divertindo.
Toda vida acompanhei minhas filhas até a escola e, depois, de volta para casa, do grupo à faculdade. Quando vieram os netos, fiz o mesmo. Minha rotina diária começa cedo, às 5h30, compro pães e levo até as casas das minhas filhas. Tomo café com minha neta caçula, Leila, 17, e, depois, a levo para a escola.”
 
O dia todo, na oficina, Dino recebe a visita de fregueses ou de amigos pra bater papo. Desde Caetano, um menino de dois anos, até os mais contemporâneos. Há quatro meses, perdeu a filha, Maria Regina. Mas mantém o hábito de fazer as refeições, ora na casa de uma, ora na de outra. O orgulho de Dino são seus quatro netos, Marcelo, João Paulo, Flávia e Leila, e o casal de bisnetos, Gabriela e Gabriel.

Confira a Galeria de Fotos

Dino, formando da Academia de Comércio São José, em janeiro de 1950. Leila e sua mãe, Aristene, os cunhados Francisco e Elza, Maria Luíza e Dr. Geraldo Souza Ribeiro, Maria Regina e Dino. Na década de 70, Leila e Dino entre suas filhas, Maria Aristene e Maria Regina. Dino fez questão de incluir a foto dos pais, nesta reportagem. Atualmente, Dino com Maria Aristene, netos e bisnetos

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