Guaxupé, terça-feira, 13 de novembro de 2018
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quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Histórias da Frente Negra

Pio e Jerônima Damião.
Pio e Jerônima Damião.
A Frente Negra, posteriormente Sociedade Recreativa Pio Damião, foi um clube fundado, possivelmente, na década de 30, pelo enfermeiro Pio Damião para oferecer atividades culturais e de lazer à comunidade negra de Guaxupé. “Minha mãe tinha um livrinho com o Hino da Frente Negra, pois ela fazia parte do coral do clube. Nesse livrinho tinha o nome da gráfica e a data de impressão, 4 de abril de 1936”, afirma Antônio Carlos Ferreira (Carlão), presidente da instituição de 84 a 94.
 
Naquela época, só existia um clube na cidade, que proibia a entrada dos negros. “Pio Damião fundou a Frente Negra Brasileira, União Política e Social da Raça, cuja finalidade era proporcionar aos seus associados benefícios de natureza variada, diversões sadias, instrução através do funcionamento de uma Escola Noturna, reunião recreativas e literárias organizadas por elementos da própria sociedade.” (Guaxupé - Memória Histórica, A terra e a gente – pág. 419)
 
De acordo com Suely dos Santos, sobrinha-neta de Pio Damião, a FN funcionou, inicialmente, numa casa na Rua da Aparecida. Mas logo foi transferida para um novo local construído pelo fundador para este fim, num terreno de sua propriedade, na Rua Francisco Vieira do Valle, 152.
 
A sede tinha telhado de barro, sem forro, coberto com bandeirolas que formavam desenhos geométricos. O assoalho de madeira recebia uma fina camada de parafina, para facilitar as contradanças. “Lembro-me das festas que aconteciam todo dia 13 de maio, comemorando a abolição. Vinham negros de todo lugar, até de Campinas e São Paulo. Aqueles que moravam fora chegavam em caravanas”, relata Suely.
 
Igual a todo clube de lazer da época, aconteciam no Pio Damião bailes de debutantes, eleições de rainhas, aulas de teatro, bordado, culinária, entre outras atividades de lazer e cultura. Tinha estatuto, diretoria formada, carteirinha de associado, tudo regulamentado. “Os integrantes formavam um bloco de carnaval que desfilava na avenida cantando marchinhas carnavalescas”, recorda.
 
Com a morte do seu fundador, em 1953, a presidência passou para José Francisco dos Santos (Tigrão), pai de Suely, ficando sua administração famosa pelo rigor: “Ele era muito bravo, não deixava os casais dançarem de rosto colado, era proibido. Os brancos podiam freqüentar, mas com respeito.”
 
Atualmente, Suely reside na casa construída pelo tio-avô Pio Damião, em 1914 (ver planta), que ficava ao lado do clube recreativo: “Da janela, eu e meu irmão observávamos o movimento. Depois dos bailes de carnaval, os funcionários da prefeitura recolhiam as embalagens de lança-perfume e serpentina que lotavam o salão.”
No início da década de 80, o vereador Jorge Cascalho conseguiu autorização para o clube funcionar no prédio da antiga cooperativa de consumo, onde ficou durante anos. “Quando encerramos as atividades, em 94, o Pio funcionava num espaço arranjado pelo seo Roberto Neto, onde hoje é a Justiça de Trabalho”, relata Carlão.
 
Segundo ele, na administração de Zeitune e Totonho, a Prefeitura cedeu um terreno na Avenida Dona Floriana, onde atualmente é a Minchillo, para construção da sede própria da Sociedade Recreativa Pio Damião. “No documento tinha uma cláusula que determinava o prazo de 2 anos para construção da sede. Como não conseguimos arrecadar dinheiro suficiente, perdemos a concessão”, explica.
 
Grande parte dessa história apresenta contradições ou se perdeu, enterrada junto com os primeiros dirigentes do clube. “Quando a sede na Francisco Vieira foi derrubada, minha mãe chorou”, relata Suely. Sebastiana Damião dos Santos ocupou por alguns anos a presidência no lugar do marido morto. Suely era garota para se recordar dos detalhes. Certamente, com o esquecimento desse passado, a comunidade negra guaxupeana perde um importante capítulo da sua história.
 
Uma vida em função do outro
 
Pio Damião, nascido em Araxá, em 1880, enfermeiro por vocação, veio de Franca para Guaxupé com a esposa e parteira Jerônima Damião, em 1913. Após curto período de atividades particulares, ingressaram como enfermeiros na Santa Casa local, onde trabalharam por mais de 20 anos consecutivos. Por seu constante devotamento aos enfermos, possuidores ou não de recursos, podem ser considerados modelos de filantropia*.
 
Com a chegada das irmãs de caridade, em meados de 1930, o casal foi dispensado, passando a exercer a profissão num cômodo da residência situada na Rua Francisco Vieira do Valle (planta de 1914), transformado em ambulatório médico. Conforme relatos de Suely, Pio Damião atendia pacientes para os quais a Santa Casa não encontrava salvação: “Ele tirava fotografias de feridas horrorosas, nas pernas e pescoços dos doentes, antes e depois de curados.”
 
Pio e Jerônima não tiveram filhos biológicos, mas criaram cerca de 8 adotivos, talvez mais. Como Nenê do Asilo, que morou com eles por muitos anos. “Meu tio-avô era muito caridoso, ajudava quem precisasse, seu lema era Quem não nasceu para servir, não serve para viver”, conta Suely.
 
Ele era bem relacionado na sociedade guaxupeana. Amigo íntimo do Dr. Dolor Coragem e do advogado Mário Ribas. Bispos e padres eram convidados para almoçarem na casa dele. Era uma pessoa bastante esclarecida, além do pensamento da época. Pio Damião era discreto e religioso, não saía muito. Fundou a Frente Negra para melhorar a qualidade de vida do povo negro e de baixa-renda.
 
Jerônima Damião faleceu em 1941, e o marido, em 1953. No ano seguinte, a Frente Negra passou a denominar-se Sociedade Negra Recreativa Pio Damião. Posteriormente, por questões políticas, retiraram a palavra negra do nome, para não denotar preconceito racial**.
 
Anos atrás, Suely recebeu uma visita inesperada: “Uma mulher bateu na minha porta e me contou que o pai dela, Paulo, criado por Pio Damião, falava muito daqui, e ela gostaria que seus filhos conhecessem o lugar onde o avô morara. Coloquei a casa à disposição, quando vi, tava descendo um monte de gente de um ônibus. Eles vinham de um encontro religioso. Eu levei um susto, mas foi uma festa. Parecia que ela já conhecia a casa, pelos detalhes das lembranças do pai, demonstrando o quanto ele fora feliz aqui. Mais uma prova da bondade do meu tio-avô.”
 
* Fonte: Guaxupé – Memória Histórica, A terra e a gente (pág. 419)
** No livro escrito por José e Geraldo Ribeiro do Valle consta que o nome foi mudado para Sociedade José do Patrocínio, mas os afro-descendentes do enfermeiro entrevistados não se recordam deste fato.
 
Sheila Saad
www.papodeviralata.blogspot.com

Confira a Galeria de Fotos

Pio e Jerônima Damião. Bloco Pio Damião no carnaval de 1962. Tigrão, Sebastiana e Maria Caetano, no centro. À esquerda, Elza Caetano, e o 2º à direita, Alcides Pereira, segundo Suely Santos, os únicos ainda vivos. Planta da casa de Pio Damião construída em 1914. Suely Santos mostra o cômodo onde funcionou o ambulatório do tio-avô. Carlão, o último presidente do Pio Damião, em 94.

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