Guaxupé, segunda-feira, 23 de julho de 2018
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segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Fazendo o impossível para ajudar

Dona Jesuína Zavagli, ex-professora, é figura marcante nas lembranças de quem estudou no “ginásio” nas décadas de 60 à 90. Enérgica e carinhosa, fazia curativos nos alunos que se machucavam. Até hoje é chamada de mãe por Zelena, professora de Educação Fís
Dona Jesuína Zavagli
Dona Jesuína Zavagli
Republicamos a entrevista realizada em maio de 2008 pela jornalista Sheila Saad

Maria Jesuína Coelho Zavagli nasceu em Guaxupé, em 20.10.32, filha de Antônio Coelho de Morais e Maria da Glória de Morais. Desde a infância, demonstrou vocação para o magistério, talvez influenciada pela madrinha Sebastiana, por quem nutria um carinho especial. Certa vez, na infância, ao visitar uma tia na Casa de Saúde, dona Téia Coragem perguntou-lhe o que seria quando crescesse. “Respondi, vou ser professora. Ela achou minha resposta uma gracinha e me pegou no colo”, conta.
 
Do pai, guarda o ensinamento: “Um bom-dia não custa dar e alegra a quem recebe.” Os netos Rafael, Júlia e Marina perguntaram se eu conhecia todo mundo, porque cumprimentava muita gente na rua. Repeti a eles as palavras do bisavô.
 
Entrou no Grupo Delfim Moreira com 6 anos. Aos 10, diplomada, não pode ingressar no ginásio, que exigia idade mínima de 11. Teve aulas particulares com Samira Abrão: “Ensinou-me as primeiras palavras em francês.” No Colégio Imaculada Conceição fez o ginasial e o curso de formação de professores. “A soror Maria Assunção marcou minha vida, ela tinha uma metodologia fora de série”, relata.
 
No 2º ano do magistério, houve uns comentários no colégio e culparam a turma de Jesuína. Os professores se negaram a dar aulas para a classe dela: “Ficamos indignadas, pois não falamos nada. Quando reconheceram nossa inocência, ganhamos uma viagem de uma semana a São Paulo. Viajamos a noite inteira no Trem da Mogiana, foi inesquecível.”
 
Formou-se em dezembro de 1950 e, em fevereiro do ano seguinte, começou a lecionar no grupo Barão, sob a direção de Yolanda Conti Bertoni. Ainda estava fresco na memória o ensinamento do professor Zizinho (Sebastião de Sá): Vocês não vão encontrar alunos de livro. “Não tinha como agir igualzinho com todos, porque cada aluno pedia uma atenção especial”, revela a educadora.
 
O grupo Barão funcionava onde é hoje o Hotel Central. Precisaram desocupar o prédio e transferir a escola para outro lugar. Enquanto a nova sede era construída, os alunos foram distribuídos entre os grupos Delfim Moreira e o Coronel Antônio Costa, onde Jesuína passou a dar aulas. Nesse ínterim, casou-se com José Zavagli, em maio de 1952. Não conseguiu renovar contrato para lecionar porque ficou grávida: “O Estado não contratava gestantes, naquela época.”
 
Mãe, esposa e educadora
Em junho, nasceu o primeiro filho do casal, Carlos Henrique (Caloi), depois Mário Lúcio e Luiz Ricardo (Tampinha). O marido trabalhava no Banco Hipotecário, que posteriormente passou a ser BEMGE. Jesuína começou a dar aulas particulares de Latim, em casa.
 
Em janeiro de 59, com o auxílio da mãe para cuidar do filho caçula de um ano, ingressou no curso de Suficiência em Latim, com 8 horas diárias de aula. “Os homens saíam para estudar em outras cidades, as mulheres, não”, explica. Fez as provas práticas e teóricas, ganhando o registro do MEC. Retomou o magistério interrompido lecionando Latim no Colégio São Luiz Gonzaga e no Seminário.
 
Uma recordação importante para a memória do município. Coronel Manoel Assunção de Souza fundou o Ginásio Estadual de Guaxupé, funcionando, inicialmente, no prédio construído para abrigar o Grupo Queridinha Bias Fortes. O Ginásio cresceu e o número de alunos dos 3 grupos, também. Era necessário um 4º grupo, bem como uma nova sede para a escola estadual.
 
O bispo de Guaxupé, Dom Inácio, fez uma proposta ao Governo de Minas. A Diocese cederia o prédio do Colégio São Luiz Gonzaga, desde que a nova escola assumisse o curso científico e os alunos da referida instituição. A segunda exigência era nomear Milo Carli Mantovani como diretor. Com a anuência do governo estadual, Guaxupé tornou-se uma das primeiras cidades da região a ter um colégio público. Jesuína, que dava aulas no ginásio, passou a lecionar no Colégio Estadual de Guaxupé e, também, foi nomeada professora do Queridinha.
 
Quando engravidou pela 4ª vez, o filho mais velho ficou bravo com Deus: Pedi uma irmãzinha e ele ainda não me deu. “Expliquei a ele que Deus tinha uma fila de pedidos para atender, sendo preciso esperar a hora certa, e, talvez, não viesse mulher. Carlos Henrique respondeu: Se vier homem, pode devolver.”
 
O filho se referia à 4ª filha, Luciana, nascida em novembro de 1961. Jesuína estava emocionalmente abalada pela morte do pai, em outubro do mesmo ano, e pelo excesso de trabalho. Ficou durante 37 dias no hospital, com Pleurisia (derrame de água no pulmão): “Fiz chantagem com o médico, só ficava internada com minha filha recém-nascida junto.” Em 62, debilitada pela doença, tirou licença-saúde para se recuperar.

Em outubro do ano seguinte, o marido foi transferido para a gerência do Banco Moreira Salles, em Muzambinho. Jesuína conseguiu se mudar somente em abril de 64: “Antes de completar um ano na cidade vizinha, Zava voltou para Guaxupé. Eu e nossos filhos voltamos somente no final do ano letivo. Daí, retomei o cargo no Queridinha.” Em 65, nasceu a 5ª e última filha, Adriana.
 
Retornou ao colégio estadual em 67, como auxiliar de administração, concursada. Ainda concluiu o 3º grau em Letras, no Unifeg, de 71 a 73. Paralelamente, lecionou no Colégio Dom Inácio e na Academia de Comércio São José. Problemas nas cordas vocais a impediram de continuar dando aulas.
 
Na função administrativa, trabalhou ao lado dos diretores Milo Mantovani, Gilberto Pasqua e Elias José. Uma das tarefas era organizar e acompanhar excursões com os alunos: as quintas-séries, fazendas; sextas, Poços de Caldas; sétimas, Batatais, Brodowski e Ribeirão Preto, e as oitavas, Rio de Janeiro. No colegial, visita às cidades históricas. “Só para o Rio, viajei mais de 26 anos consecutivos”, informa.
 
Nas primeiras excursões, eram 2 ônibus e cerca de 60 alunos: “Na 1ª vez, passamos um apuro. Ao retornarmos para o albergue, notamos a ausência de um aluno. Dois professores voltaram para procurá-lo. Ele estava sentado nas escadas do Corcovado, lendo gibi. A partir daí, começamos a fazer chamadas para confirmar as presenças.”
A aposentadoria chegou em 85, mas, quatro anos depois, prestou novo concurso, assumindo o cargo anterior até 1995, quando aposentou-se, definitivamente, para ajudar um parente doente. “Tava na hora de passar a peteca. Mas se tivesse condições, faria tudo de novo.”
 
De acordo com ela, homem se aposenta, mulher não, tem sempre o que fazer em casa. “Gosto de ser útil e de ajudar quem precisa.” Esta frase resume a filosofia e as atitudes de Jesuína perante a vida. Católica atuante é coordenadora da Pastoral da Esperança, grupo de mulheres que faz orações nos velórios: “Esse trabalho que não tem dia, nem hora, pode ser até Natal. Seja lá quem for, conhecido ou não, se a família permitir, a gente comparece. Muitas vezes, uma palavra de consolo dá um ânimo.”
 
José Zavagli gostava de jogar cartas com os amigos. Na noite anterior à morte dele, em 1992, a reunião foi estimulada com um belo lanche preparado por Jesuína. A casa da família Zavagli estava sempre cheia, os 5 filhos também tinham muitas amizades: “Um dia, meu irmão Antônio entrou em casa e me perguntou: Você sabe quantas pessoas têm na sua cozinha? Respondi que não. Ele retrucou: 42.”

Texto: Sheila Saad
www.papodeviralata.blogspot.com
 

Confira a Galeria de Fotos

Dona Jesuína Zavagli Encontro de 4 gerações: a mãe, Maria da Glória, a avó, Maria Paulina, Jesuína e a filha Luciana. A turma de Magistério do Colégio Imaculada Conceição durante a viagem de trem para São Paulo. Ilustração de Jesuína e José Zavagli, por Sandra Bianchi, nora do casal. Jesuína com os 5 filhos, a partir da esq., Adriana, Luiz Ricardo, Mário Lúcio, Luciana e Carlos Henrique, com os netos Ricardo, Lúcio, Mariana, Pedro, Priscila, Gabriel (colo) e Rafael – 1999.

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