Guaxupé, quarta-feira, 15 de agosto de 2018
Você está em: Acontece / Minha História / Tradição em longevidade
quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Tradição em longevidade

Ítala Prósperi, professora aposentada, fala da revolução constitucionalista, paralelepípedos e outras histórias do tempo que nossas matas tinham “oncinhas.”
Foto e texto: Sheila Saad
Foto e texto: Sheila Saad
Em comemoração aos 100 anos da professora Ítala Prósperi festejado hoje, dia 3 de janeiro de 2018, o CORREIO SUDOESTE novamente publica a entrevista cedida a jornalista Sheila Saad em setembro de 2008, para a coluna Minha História.

Ítala Prósperi, conhecida por Itinha, 90, natural de Guaxupé, é a 11ª dos 12 filhos do casal Carlos Prósperi e Amélia Brandão Alberti. “Minha mãe completou 101 anos, lúcida. Na festa de 100 anos fizemos um bolo enorme pra ela”, conta. Carlos Prósperi migrou da Itália no final do século XIX, proprietário do 1º cinema de Guaxupé, o Cine São Carlos: “Papai sempre foi bom de negócio, punha os outros para trabalhar e ele só administrava.”
 
Itinha nasceu na Travessa João Cruvinel, número 1, onde hoje funcionam vários comércios: “A construção ainda conserva, no alto, o barrado original.” A rua era de terra. Lembra do mestre-de-obras, baixinho e gordinho, que exigia um serviço perfeito dos calceteiros. “Eles martelavam cada pedra pra ficar bem firme. Não é como hoje em dia, que eles tiram 10 e recolocam apenas 5, deixando o serviço mal-feito”, comenta.

Os dois primeiros anos do primário estudou em Casa Branca, para onde se mudou com a irmã Geni: “Minha sobrinha Vilma, de 1 ano, era muito apegada a mim.”
 
Fez o 3º ano com Cecília Leão, no Grupo Delfim Moreira, e o 4º, com a professora Lula Silva. Segundo Itinha, naquele tempo os pais não faziam questão de colocar o filho na escola cedo, recebeu diploma aos 14: “Lembro dos meus colegas, todos grandes.”
 
Em 1932, conta que o povo fugiu para as fazendas com medo da revolução constitucionalista, quando os paulistas tomaram conta da cidade. “Fizeram um quartel na sapataria do João Gonçalves, em frente a nossa casa. A maioria dos soldados eram mocinhos e bonitos, minhas irmãs os paqueravam. Por pena, lavavam suas roupas e davam comida para eles, sem papai saber”, revela. Numa noite de domingo muita gente passeava na avenida, alguém avisou que iam chegar mais paulistas de trem: “Em vez deles, desembarcaram vários jagunços mineiros, uns baita negões. Foi um corre-corre. Os simpatizantes dos paulistas os ajudaram a fugir disfarçados com roupas civis.”
 
Com 15 anos entrou para o Colégio da Imaculada Conceição. Lembra-se das amigas Adelinha Volta e Mariana Ribeiro: “Nana era muito alegre e expansiva. A classe do 3º normal ficava no andar de cima. Na casa ao lado morava Dr. Benedito Leite Ribeiro e família. Um dia, no intervalo das aulas, os filhos dele ouviam música, Nana chegou na janela, que era alta, e gritou para eles, Toca La Comparsita. Madre Gonzaga, que orava na capela no andar inferior, escutou, subiu as escadas que nem um raio. Na porta da sala, perguntou quem tinha falado aquilo. Nana levantou, colocou a mão na cintura e respondeu, fui eu. Levou uma bronca danada, mas nem ligou, foi muito gozado.”
 
Em 1936 Itinha formou-se normalista. Domingos Pasqua tirou as fotos e Nicolino Amidani arrumou os cabelos das formandas. “Estava na moda fazer permanente e ele era o melhor cabeleireiro. Na cerimônia, todas nós tínhamos os cabelos encaracolados”, relata.
 
Professora querida
Em 37 começou a lecionar na Fazenda Santa Maria, da dona Zina Magalhães, onde morou por sete anos. Visitava a família somente nos finais de semana. Durante a 2ª guerra, quando faltou gasolina na cidade, viajava de charrete. Na escola rural, as turmas de 1ª a 3ª série estudavam juntas, na mesma sala: “Enquanto tomava a lição de uma, eu passava exercícios pra outra, e ia controlando.”
 
“A família de dona Dudu e seo Mesophante Rios também morava na fazenda. Ensinei Manoel, João e Maria Justina a ler. Ela aprendeu com cinco anos. Ficamos tão próximas que Justina fez questão de me convidar para sua madrinha de crisma”, conta.
 
Uma história passada na fazenda: “Os moleques foram nadar na cachoeira e ouviram um miado. Pensaram que um gato tivesse caído no buraco. Um dos meninos enfiou a mão dentro dele e puxou uma oncinha pintada, uma gracinha! Levaram o bichinho pra casa, mas ficou doente e logo morreu.”
 
Em 43, passou a dar aulas no Grupo Barão de Guaxupé, sob direção de Yolanda Conti Bertoni, no prédio do Hotel Central. Em 1955 foi transferido para o endereço atual. Junto com Nilva Gurgel Pinto subia a rua de terra que levava até a escola. “Tinha um aluno muito encapetado, o Norival. Ele faltava às aulas pra nadar nos rios. Um dia, a mãe dele me entregou uma vara de marmelo comprida para eu bater nele quando chegasse tarde. Deixei a vara num canto da sala, sem intenção de usar. Quando dona Yolanda viu, falou, Nossa, Itinha, agora aqui o negócio tá bom, é com vara de marmelo? Daí, expliquei a ela o ocorrido”, recorda sorrindo.
 
No Barão foi, também, professora dos irmãos Lagoa, Augusto Tavares e José Caetano Zerbini, “todos alunos levados. Já Abel Celestino não dava trabalho, era muito bonzinho.” Também guarda boas lembranças da cantina da escola: “As professoras comiam lá. Dona Concheta, cozinheira, e Tereza Correia, ajudante, eram ótimas funcionárias.”
 
Em 63 Itinha se aposentou. Nessa época sua mãe se aproximava dos 100 anos e precisava de cuidados. Solteira, nunca quis se casar. Em compensação ajudou a criar vários sobrinhos, como Marcos, Toninha, Vilma, João Bosco, Paulinho, Serginho, entre outros. Sua casa estava sempre cheia. Depois que a mãe e sua irmã Maria morreram, morou com a sobrinha Toninha, ajudando a criar, também, os filhos dela, Maria Amélia e Maurício.
 
Em 87, com o nascimento da sobrinha-bisneta Lis, filha de Maria Amélia e Rubens, nova mudança: “Estou com Maria Amélia até hoje, a gente tem uma relação de mãe e filha, ela é muito especial.”
 
Após a aposentadoria começou a lecionar Catecismo junto com a amiga Nina Ribeiro. No início as aulas aconteciam na rua, no canteiro central da grande avenida, próximo à faculdade. Com o tempo, conseguiram um espaço no Taboão, numa sapataria. “Minha companheira de catequese era Leila Abrão. À noite, o proprietário retirava seus instrumentos de trabalho e deixava a gente dar aulas. Depois fomos pra Catedral, Academia de Comércio São José e, em 90 e 91, demos aulas no colégio das freiras. Como o número de professoras aumentou, achei que podia parar”, explica. Guarda de recordação os “santinhos” da 1ª comunhão dos seus alunos.

Atualmente, Itinha tem uma vida agitada, todos os dias faz companhia para sua irmã Margarida, que vive sozinha, aos 97 anos, precisando de apoio. Além disso, costuma viajar para a casa de parentes em outras cidades. Tem 34 sobrinhos: “Dos sobrinhos-netos, bisnetos e tataranetos já perdi a conta. Quando estão em Guaxupé sempre me visitam. Pra mim, é uma alegria.”
 
Sheila Saad
www.papodeviralata.blogspot.com
 

Comente, compartilhe!

© Copyright 2014 - Todos os direitos reservados