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quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Professor Leo, o aventureiro

Em homenagem ao fundador do CORREIO SUDOESTE, republicamos hoje, quando ele completaria 73 anos, sua entrevista para a jornalista Sheila Saad
Léo sempre foi um apaixonado por motos
Léo sempre foi um apaixonado por motos
As aventuras de Eloadir Almeida Vieira foram muitas. Fundador do Correio Sudoeste, em 1973, Leo conta aqui como começou sua trajetória profissional, de ator de telenovelas em São Paulo, puxador de toras e gado e professor de Inglês, no norte de Goiás, até chegar a diretor do jornal semanal guaxupeano.

Eloadir, 63, morava com os pais no Moçambo e iniciou seus estudos em Guaxupé, entre 1957 e 1962. Em 1965, decidido a se tornar ator profissional, mudou-se para São Paulo, onde estudou artes dramáticas no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). Para ganhar a vida, trabalhou como vendedor de brindes para empresas: “ia de lambreta, vestido com terno e gravata”.

Naquela época, freqüentava o estúdio do Mazzaropi no Largo Paissandu. Chegou a fazer pontas em novelas da Tupi, como Ponte de Waterloo, Presídio de Mulheres, Um segredo na alma de Silvana e na primeira versão de Éramos Seis: “Nunca consegui pegar um papel importante porque não tinha padrinho”. Mesmo assim, o jovem aspirante a galã de cinema participou do filme O pequeno mundo de Marcos, e trabalhou com grandes artistas da época, como Hélio Souto, Noite Ilustrada e Leila Diniz: “Agnaldo Rayol aparecia sempre por lá”. Um sonho não chegou a concretizar: gravar um compacto com 4 músicas da Jovem Guarda.

Em 1967, estressado com o trabalho que sempre acabava de madrugada, colocou o violão embaixo do braço e viajou para o norte de Goiás. “Meu irmão comprou umas terras e foi plantar arroz, decidi ir ajudá-lo”. No caminho, em Goiânia, foram assaltados no ônibus. Os ladrões levaram todo o dinheiro que o irmão dele levava pra pagar os 10 lavradores da plantação de arroz. “Tinha até índio trabalhando para ele. Como ficamos sem dinheiro, foi preciso botar a mão na massa. Capinamos arroz até calejar as mãos”.

As noites, às margens da Belém-Brasília, cercados pelo mato, o silêncio era quebrado com os acordes do violão de Leo. Nos fins de semana, freqüentavam os bailinhos em Araguaína, Arapoema e Colinas de Goiás.

Com o dinheiro da venda do arroz, compraram um caminhão. “Fomos puxar toras para madeireiras e transportar gado. Um dia, o caminhão atolou e dormimos no meio da mata. Tínhamos um Rifle 44 e uma Winchester 42, para o caso de sermos atacados por algum animal. Sentimos o cheiro de uma onça nos rondando e dormimos os 3 na cabine do caminhão, pois estava muito escuro”, recorda.                                                                                                                                                                  

Nessa época, se mudaram para Araguaína, entre os rios Tocantins e Araguaia. Leo começou a dar aulas de Inglês, nos intervalos dos carretos, no Ginásio Santa Cruz, para alunos de 5ª a 8ª série. Foi quando conheceu Marizete que cursava a 8ª série: “Tinha encontrado o moço bonito na rua duas vezes, mas ele não me viu”, diz ela. No ginásio, passou a ajudar o Profesor Leo a passar as notas para os diários de classe. Esse convívio resultou em namoro e posterior casamento, em dezembro de 1970: “O padre era também o diretor da escola”.

Quando o caminhão dos irmãos, dirigido por um motorista contratado por eles, despencou de uma ponte de 10 metros, matando um menino que pegara carona, Eloadir precisou retornar à Guaxupé para pedir dinheiro ao pai para acertar as dívidas. De volta a Araguaína, se casou com Marizete e decidiu voltar à terra natal.

O caminhão, que ficara tombado no rio durante cerca de uma semana, foi retirado e precariamente consertado para a viagem de volta. Os documentos foram perdidos, bem como a capacidade original do motor. Mesmo assim, o casal partiu numa aventura de mais de 1.800 km.

Com pouco dinheiro, as refeições eram preparadas na beira da estrada, onde descansavam em redes dispostas sob as árvores, depois de se banharem nos rios. Sem carteira de motorista, o único documento era uma carta de recomendação do Delegado de Araguaína. Em cada posto policial, Eloadir parava e contava sua história para prosseguir. Muitas vezes, pedia ajuda para empurrar o caminhão.
 
Vida de jornalista
Durante o tempo de professor no Santa Cruz, Eloadir editou também o primeiro jornal da cidade, o Folha de Araguaína. “No museu da cidade, não consta nosso jornal, mas prometi encaminhar um exemplar para eles”. Naquela época, Leo tinha até a 8ª série: “Fui um aventureiro, eu escrevia, mas errava muito”. Dois profissionais ensinaram a Eloadir as artes do ofício: Ariovaldo Argelo, um dos fundadores do Correio Brasiliense, e Roberto Kenjiro, de Campinas.

Parênteses para um fato curioso: convidado para almoçar com Kenjiro, Leo foi apresentado a um homem chamado Lamarca. “Quando meu amigo japonês foi cobrir a guerrilha, não voltou mais. Posso ter almoçado com um dos maiores líderes guerrilheiros do país, Carlos Lamarca”.

Em 1971, Leo retomou seus estudos na Academia de Comércio de Guaxupé. Quando começou a redigir um jornal acadêmico, chamou a atenção de dois políticos proeminentes. Foi convidado por Ítalo e Walmor Russo, prefeito, a escrever um jornal maior. “Só havia a Folha do Povo, partidária do Dr. Benedito Felipe”, recorda. O Correio Sudoeste foi patrocinado por um grupo de correligionários do seu Ítalo e Walmor. “Como tivemos grande apoio do comércio, nem precisamos usar o dinheiro oferecido por eles, e ainda sobrou pra me pagar um salário”.

Até nessa época, Leo, que havia dado muitas cabeçadas, fez um pacto com Deus: “Não tínhamos dinheiro para comprar fraldas para Mariléia, nossa primeira filha, que nasceu quando recebi também meu primeiro salário”. No nascimento dos outros 4 filhos, mais motivos para comemorar: Lucinéia, compra de máquinas tipográficas para fazer propagandas; Luciano, aquisição de equipamentos para imprimir jornais; Lucimara, Leo adquire a parte do sócio Ítalo Russo e se torna único proprietário do jornal; Eloadir Filho, mudança para sede própria do Correio Sudoeste. “Por mim, tava nascendo filho até hoje”.
 
Texto: Sheila Saad
www.papodeviralata.blogspot.com



 

Confira a Galeria de Fotos

Léo sempre foi um apaixonado por motos Em São Paulo, fez curso de teatro e participou até de novelas Com a esposa Marizete, e os filhos Mariléa, Lucinéia e Luciano. Ainda têm os filhos Lucimara e Eloadir Filho

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