Guaxupé, sexta-feira, 15 de dezembro de 2017
Você está em: Acontece / Minha História / Exemplo de perseverança e dedicação
sexta-feira, 6 de maio de 2016

Exemplo de perseverança e dedicação

As recordações de Seo Moacyr, professor de olhar meigo e fala mansa: “Tudo que vivi me serviu de inspiração.”
O engenheiro agrônomo Alfredo da Cunha Ferreira, natural de Candeias, BA, conheceu a guaxupeana Maria Ubaldina Ribeiro Costa durante uma viagem de trabalho. Casaram-se e foram morar com Carlota Ferreira, mãe de Alfredo, numa casa da cidade alta, em Salvador, onde nasceu Moacyr Costa Ferreira, dia 11 de agosto de 1928, o primeiro dos 5 filhos do casal.

Em 1930, antes de Moacyr completar 2 anos, vieram para a Fazenda Serra Nova, em Guaxupé. O avô materno, Joaquim Costa Filho, durante a grande crise financeira da época, pediu que o genro tomasse conta dos negócios da família.

Moacyr passou a maior parte da infância na zona rural, ia para a cidade somente nas festas, como Natal e Ano-novo. “A gente brincava de cirquinho, o preço da entrada era 1 palito de fósforo”, relata. O menino Moacyr fazia peripécias de bicicleta sobre um tablado de madeira elaborado por ele e pelos colegas para esta finalidade.

Um episódio circense resultou numa surra catastrófica. Um garoto pulava sobre um dos lados de uma gangorra, fazendo voar um bichinho de pelúcia colocado do outro lado. “Enquanto um dos meus colegas arrumava o bichinho sobre a gangorra, eu pulei no lado oposto. Não sei ao certo o resultado, mas deve ter doído, porque ele gritou muito, e meu pai me fez gritar ainda mais. Não me lembro desse menino ter voltado na roça pra brincar comigo.”

Quando tinha 6 anos, ele e o amigo João levantaram uma casa de barro, com telhado de zinco e duas janelas. As irmãs do amigo faziam comida e o serviço da casa: “A gente ficava sentado, esperando. Um dia, uma forte chuva entortou a casa, deixando-a inclinada como a Torre de Piza. Meu pai, temendo um acidente, fez a gente desmanchá-la, tijolo por tijolo. Foi uma ocasião tristíssima.”

Naquela época ainda existia mata preservada na fazenda, onça e outros bichos. “Hoje em dia, quando muito, a gente vê um lagarto, uma cobra ou um sagüizinho”, explica. Com João e o irmão Elysio, andava de carrocinha puxada por carneiros no meio da mata exuberante.

Os três primeiros anos do primário Moacyr e Elysio estudaram na roça, com professora particular. No primeiro, Terezinha Benedetti, e nos dois últimos, Irene Vasconcelos: “Lembro do meu pai fazendo as pontas dos lápis com canivete, ele fazia questão que estivessem sempre bem-feitas.”

Já o 4º ano, em 1939, foi matriculado no Grupo Barão, no prédio onde atualmente é o Hotel Central: “Lula Silva, professora, me perguntou o nome de uma pessoa importante de Guaxupé, que morava na praça da Catedral. Respondi prontamente: José Abrão, todos riram, porque ela se referia ao Conde Ribeiro do Valle. Como vivia na roça, não sabia muito sobre as coisas da cidade.”

Em 40, passou no exame de admissão do ginásio São Luiz Gonzaga. “A gente precisava estudar muito, as professoras faziam questão que os alunos aprendessem.” Aplicado, Moacyr sempre gostou de estudar. Lembra que as provas parciais, no meio e no final do ano, aconteciam no refeitório da escola, com as carteiras distantes umas das outras, para os alunos não colarem, na presença do diretor Álvaro Costa, do inspetor Sebastião de Sá (Seo Zizinho) e de todos os professores: “Tinha 2ª época e bomba de verdade.” Recebeu o diploma do ginásio em 1943.

Moacyr vivenciou algumas mudanças na estrutura do ensino, como a reforma ortográfica (1939) que, entre outras alterações, trocou o “ph” pelo “f”. O ginasial, antes com duração de 5 anos, passou a ter 4, seguido de mais 3 anos do colegial: “Cursei até o 1º Científico no São Luiz, depois fiquei um ano na Academia de Comércio São José, retomando o Científico no Colégio Estadual Euclides da Cunha, em São José do Rio Pardo.”

Morava com os colegas numa pensão, em alguns finais de semana, vinham de trem para Guaxupé: “A viagem demorava 2 horas.” O banheiro da pensão ficava num comodozinho no quintal, sem água quente. A proprietária esquentava água e um colega ajudava o outro a se molhar com uma caneca: “Pra facilitar na hora de lavar a cabeça.”

Em 48, Moacyr e seus companheiros prestaram vestibular para Medicina, no Rio de Janeiro, mas ninguém passou. Naquele tempo, os veteranos faziam trotes com os aspirantes antes mesmo do vestibular, raspavam bigodes, cortavam cabelos, etc. “A gente ia para o local das provas de bonde, lentamente, curtindo o medo do que nos aguardava.”

No ano seguinte, os amigos retornaram ao Rio, mas Moacyr, primogênito da família, precisou assumir os negócios do pai, que adoecera. Ainda assim, nunca abandonou os livros. Em 1960, estudando Francês na fazenda, recebeu a visita da diretora do recém-criado Colégio Estadual de Guaxupé, dona Beatriz, que o convidou a dar aulas. Como Moacyr não tinha registro profissional, não foi possível aceitar.

Mas motivado por essa possibilidade, em 61, fez o curso de Francês no CADES – Campanha de Aperfeiçoamento e Difusão do Ensino Secundário - em seguida, o de Ciências, ficando habilitado nas duas matérias. Em 63, foi convidado pelo padre Mário Pio a dar aulas de Ciências no ginasial do “seminário menor”. Naquele mesmo ano, a convite do diretor Milo Mantovani e de Ronaldo Xavier, professor de Química, passou a lecionar Física no Colégio Estadual, substituindo o professor Ubiratan Zucherelli: “Tomei gosto pela Física passando noites em claro para resolver os problemas e ensinar os alunos.”

Era necessário diploma superior para ser efetivado no cargo de professor de Física. De 66 a 69, cursou Matemática na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Guaxupé, com habilitação em Física e Desenho Geométrico. A partir de 1970, começou a lecionar também na Faculdade. Atualmente, aposentado nas duas escolas, continua ensinando práticas de Física no laboratório do Unifeg.
 
Autor de mais de 100 livros

Moacyr Costa Ferreira tem 60 livros publicados, muitos na área científica. Mais de 40 aguardam publicação: “Estão finalizados, mas acho que não vou publicá-los mais.” Os temas são variados: folclore, ciências, infantis e infanto-juvenis. E cultura geral, como histórias, crônicas e poesias: “Tudo que vivi me serviu de inspiração.”

Numa viagem à Paris, Moacyr levou o Dicionário de Inventos e Inventores, de sua autoria, como doação à biblioteca da Sorbonne, universidade que sempre sonhara conhecer. Foi acompanhado da esposa e de duas professoras cariocas, companheiras de excursão. “Fomos muito bem-recebidos, a diretora da biblioteca pediu outros livros de minha autoria sobre história das ciências, que encaminhei posteriormente pelo correio.”

Ao longo da trajetória como escritor, recebeu vários prêmios, tanto referentes ao desenvolvimento científico, como literários. “O mais importante, pra mim, foi a menção honrosa, em 92, pelo Prêmio José Reis de Divulgação Científica, promovido pelo CNPQ

– Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico.” Ganhou, também, o Clio de História, em 99, pela obra Ergologia Folclórica, onde listou vários elementos materiais em risco de extinção da cultura popular.
 
Marido apaixonado

Antes de ser apresentado a Dirce Mattos (1928-2006), “a mulher da minha vida”, já a conhecia de vista e admirava sua maneira de ser, mesmo sem saber nada sobre ela: “Quando a vi pela 1ª vez, ela trabalhava na Papelaria Brasília. Ela me atendeu e eu fiquei encantado.”

Apresentaram-se cerca de 3 anos depois, dia 11.06.50, num domingo, durante um footing na Avenida Conde Ribeiro do Valle. A partir daí, se encontravam nos finais de semana para conversar e se conhecer melhor: “Ficamos noivos em 1951, passamos a nos ver diariamente.” Casaram-se no Natal do mesmo ano.

Como Moacyr tinha família e negócios para cuidar, antes mesmo da morte do pai, em 1960, foram morar na fazenda após o casamento, onde viveram por mais de 30 anos e onde criaram as 2 filhas, Yara e Maria Angélica. “Dirce deu aulas na Escola

Rural da Serra Nova, desde sua fundação até a aposentadoria dela.”

Para ele, foi um casamento 99,9% feliz: “A gente viajava muito, Dirce sempre tinha vontade de conhecer algum lugar, aprendi a gostar de viajar com ela”, relata. Viajaram por todo o Brasil, conheceram Buenos Aires, Nova York e Canadá. Somando as economias do casal, visitaram 3 vezes o velho continente. “Quando me aposentei no Estadual, usei o fundo de garantia para ir com ela a Europa. Fiz o mesmo ao receber a diferença do Plano Collor. Foi um dinheiro muito bem empregado.”
Moacyr publicou 2 livros em homenagem póstuma à amada: Poemas para Dirce e, posteriormente, memórias fotográficas do casal, que atualmente tem 4 netos e uma bisneta. “Se eu tivesse outra vida, repetiria tudo o que fiz, sempre com ela.”

Sentimento eternizado em vários poemas: “Companheira de todos os momentos de minha vida, estrela preciosa que sempre iluminou meus sentimentos. Mesmo vendo que te foste em pessoa, em minha mente estás, mais vigorosa, trazendo sempre uma lembrança boa!”
 
Sheila Saad
www.papodeviralata.blogspot.com
 
“Tudo que vivi me serviu de inspiração.” (seo Moacyr)

Confira a Galeria de Fotos

Os irmãos Moacyr e Elysio num passeio de carrocinha puxada por carneiros, em 1934. Aguardando a partida do trem da Mogiana, em 47, ao lado do amigo João Bosco Rios. O casal com as filhas, Yara e Maria Angélica. Moacyr e Dirce em frente à biblioteca da Sorbonne, em Paris, 1999

Comente, compartilhe!

© Copyright 2014 - Todos os direitos reservados