Guaxupé, quinta-feira, 14 de dezembro de 2017
Você está em: Acontece / Minha História / Nina Pensão Sucuri
sexta-feira, 29 de abril de 2016

Nina Pensão Sucuri

Dona Nina entre as diversas plantas no quintal da pensão
Dona Nina entre as diversas plantas no quintal da pensão
Em 28 de fevereiro de 2015, a sempre simpática Dona Nina participou da coluna Minha História e contou um pouco da sua trajetória de vida.
Muito querida na cidade, era animada, cheia de vida e sempre disposta a ajudar.
Todos os dias, por sua pensão, que também era o local onde morava, passavam amigos e familiares que iam desfrutar de sua companhia e tomar um café com seus deliciosos bolos.
Hoje não só a família chora a perda repentina de Dona Nina, mas toda a cidade.
Ficam as lembranças, fica a saudade, fica a esperança de que ela tenha o merecido descanso junto dos seus que também já partiram. Lucinéia Vieira

Sucuri engole cobras
Há 53 anos, quando a estação ferroviária de Guaxupé gerava um grande fluxo de visitantes e turistas, José Jerônimo de Oliveira, mais conhecido por José Godói, adquiriu a Pensão Aurora, em uma das esquinas da Av. Conde Ribeiro do Valle e quase de frente à antiga estação, onde atualmente é a Secretaria de Saúde. Para se destacar entre os diversos hotéis e pensões da cidade, incluindo o famoso Hotel Cobra, Godói, casado com Maria Augusta de Oliveira, escolheu o nome Pensão Sucuri, para “engolir os concorrentes” ou se sobrepor aos “cobras” do mercado, como o Hotel São Sebastião, atual Pizzaria Frangonette; o Hotel Cardoso, que foi substituído pelo Edifício Suzana Barbosa, o Royal, o Hotel da Rose, entre outros.
Com exceção do Novo Hotel, que já se chamou Hotel Brasil e Ouro Verde, os outros, incluindo antigas pensões, não resistiram ao tempo. Para contar história, a Pensão Sucuri vem sendo, há mais de 50 anos, administrada pela sobrinha de Godói, Conceição Maria Serafim, a dona Nina, 76, nascida na roça e próximo do distrito de Petúnia, município de Nova Resende.
O apelido Nina surgiu após o nascimento. O pai João Serafim Godói insistiu no nome Conceição, contrariando a mãe Ana Rita de Jesus, que apelidou a filha sobrevivente de uma doença na garganta. Desconhecida na época, a infecção viral crupe, que é contagiosa e pode ser originária do sarampo, atingia os canais respiratórios, impedindo a ingestão de alimentos. Dona Nina foi diagnostica e tratada a tempo por um farmacêutico de Nova Resende, para onde ela se mudou aos 12 anos e lá viveu por algum tempo.  
Dos 14 filhos de João e Ana, alguns morreram ainda bebês, por não conseguirem sugar o leite materno. Dona Nina não se recorda o nome da maioria dos irmãos, com algumas exceções, como caçula e aposentado João Serafim Filho, falecido em janeiro de 2004, aos 69 anos. A irmã Gomercinda Tina, solteira, mora em Muzambinho.  Ela ainda se recorda que o pai morreu aos 50 anos, de doença no estômago, possivelmente câncer. A mãe chegou aos 55, também vitimada pelo câncer. As lembranças dos avós Joaquim Moreira e Ana Rita são ainda mais remotas.
Dona Nina não se casou, mas de certa forma adotou como filho alguns primos e até mesmo hóspede que se tornaram moradores definitivos da pensão.

Mudanças e adaptações
No início, a Sucuri foi reformada para receber a grande quantidade de hóspedes que viajavam de trem e pernoitavam em Guaxupé. Da região, muitos vinham para fazer compras. Só tinham carros pessoas ricas. Já a quantidade de cavalos era expressiva, tanto para o transporte de pessoas e como veículo de carga para levar e buscar mercadorias no trem de ferro. O carnaval da época também era tão movimentado que, para atender à grande quantidade de visitantes, era preciso espalhar colchonetes pelos corredores e a sala da pensão.
Foram tantas e tão rápidas as mudanças na Av. Conde Ribeiro do Valle e no centro da cidade que ela nem sabe dizer qual foi a mais marcante. O edifício em frente mudou a paisagem urbana. Há 43 anos o jornal Correio Sudoeste era vizinho da Pensão Sucuri, na esquina de baixo. No mesmo quarteirão, havia um bar onde é a agência bancária Acicredi, em frente à Padaria São Judas, quase ao lado do Hotel Cobra que, depois de muitos anos desativado, tornou-se o Teatro Municipal, Câmara dos vereadores e prefeitura.
Os valores humanos também passaram por mudanças. “Antigamente, o povo era mais humildade. Tinha pouca coisa e dava valor. Isso mudou. Quanto mais tem, mais insatisfeito fica. As pessoas eram amorosas. Hoje, muitos filhos  não têm amor nos pais, e tem pai que não gosta dos filhos.”  Ela observa que nos tempos atuais muita gente não trabalha. E fica impressionada com o aumento de drogas na cidade. “As mulheres estão ficando mais safadas. Ficou difícil pra casar”, acrescenta.
Difícil também é manter uma pensão sem o grande fluxo turístico de tempos atrás, quando o cantor Milionário se hospedou lá, sem o parceiro José Rico. Ele se interessou em adquirir um pavão que havia na pensão, mas não teve como levar o animal. Depois que a ave morreu e foi embalsamada, Milionário efetuou a compra Nas paredes da pensão, onde há diversos quadros, foi mantida a foto do sertanejo João Mulato, que também se hospedou lá, mas sem o parceiro Douradinho.
Por mais de dez anos, os peões competidores do rodeio em cavalo se hospedavam na pensão durante a Expoagro. A maioria ganhava carros na competição e poderia ficar em um hotel, mas preferiam a simplicidade caseira da pensão. Levavam os veículos conquistados para ela conhecer. Quando tinham algum ferimento nas provas, Dona Nina fazia curativos nos peões. As circunstâncias mudaram e a pensão já não os recebe mais em quantidade. Passaram a ficar em hotéis e em trailers de veículos.
Nem o poder do nome Sucuri consegue hoje competir com o “mercado de cobras” do setor hoteleiro na cidade, que cresceu e se profissionalizou, adequando-se aos novos tempos. Com dez quartos e uma localização privilegiada, a pensão preserva clientes antigos. É comum alguns conhecidos aparecem de madrugada, sem agendamento. No último carnaval, jovens de São Paulo preferiram a Sucuri, que simplificou o café da manhã em relação ao que era servido antigamente.
Em tempos de falta de segurança, furtos e roubos, nos 53 anos da Sucuri somente uma vez desapareceram objetos sem muito valor. Durante o dia a porta fica aberta e o muro baixo é fácil de pular, mas os cuidados preventivos aumentaram. O local tem a vantagem de ficar em frente ao edifício Suzana Barbosa, onde há vigia por 24h. Também é próximo do posto RVM, com monitoramento de câmeras que engloba a pensão. E com frequência, policiais visitam a Sucuri para tomarem um café.
Ela diz que é um local tranquilo e silencioso à noite, com exceção do carnaval, a programação natalina e eventos esporádicos. Nos últimos quatro anos, durante o carnaval, na lateral da pensão é montada uma tenda para os familiares e amigos dela, que têm o conforto de assistirem aos shows como se fosse um camarote, além de usarem os banheiros da pensão.

Hóspedes moradores
A pensão tem hoje três hóspedes moradores: Hélio, Eli e Zezão. Uma das regras da casa, que tem sido mantida, é não haver conflito entre eles. Essa harmonia prevalece. O baiano de Feira de Santana, Hélio Rodrigo Santos, trabalhava em uma usina de Ribeirão Preto, sofreu acidente de trabalho e passou a usar pinos da perna. Voltou para a Bahia, casou-se, separou e decidiu voltar de vez a morar em Guaxupé.
Ele já tinha se hospedado na Sucuri, totalizando até hoje dois anos de moradia. Hoje, considera que encontrou uma família. Tornou-se um tipo de filho para Dona Nina. Quando Hélio sai e demora para voltar, ela liga para o celular e pergunta o porquê do atraso. Se viaja, tem que avisar. Até mesmo de manhã, quando se atrasa no horário para acordar, ela se preocupa e bate na porta.
A familiaridade aconteceu quando o primo José Godói, um dos filhos do comprador da pensão, ajudou Hélio a conseguir aposentadoria por invalidez e deu hospedagem na pensão. Com o tempo, tornou-se moradia. O baiano se tornou um ajudante de Dona Nina, que aos 76 anos enfrenta limitações para administrar a pensão e fazer praticamente sozinha uma grande quantidade de afazeres domésticos.
Quando ela sai para as compras ou outra atividade, Hélio toma conta do espaço, atende telefone, recepciona hóspede, recebe pagamentos, soluciona imprevistos e ajuda no que for preciso. A limpeza, que é determinante para uma pensão e hotel, é feita diariamente, assim como lavar roupa de cama, toalhas, cobertas... Dona Nina lava, ele torce as peças mais pesadas. Também lava louça e realiza outras tarefas.
No quintal da casa há mais de 50 vasos plantados, que exigem cuidados constantes. Dona Nina conhece as plantas pelo nome. A maioria é decorativa, com predominância para o verde. Algumas são medicinais, outras são ervas aromáticas para temperar comida. Aliás, os almoços da Pensão Sucuri se tornaram famosos. Hoje já não mais servidos aos hóspedes. Restringiram-se aos familiares e amigos próximos. Geralmente os filhos de José Jerônimo de Oliveira costumam almoçar com Dona Nina.
O café da manhã servido aos hóspedes também se tornou mais simples, mas dificilmente um visitante sai sem tomar um cafezinho, comer um biscoito, pão de queijo, pedaço de bolo e desfrutar da simplicidade sorridente de Dona Nina.
Hélio define a mãe adotiva: “Ela é muito amorosa e não sabe dizer não”. 
 

Confira a Galeria de Fotos

Dona Nina entre as diversas plantas no quintal da pensão O tio José Godói com a esposa Maria Augusta, a Maroca Por mais de dez anos, peões de rodeios se hospedaram na Sucuri Nina entre as amigas Mercedes Clemente e a filha Carmem

Comente, compartilhe!

© Copyright 2014 - Todos os direitos reservados