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sábado, 12 de dezembro de 2015

Chef sofisticado com padrão Uai

Graduado em Comunicação Social, Serjão já foi cafeicultor, continua alambiqueiro e chef de cozinha. Ele se identifica com a alta gastronomia italiana, a MPB de qualidade, jazz e blue. Foi proprietário dos bares-restaurantes Empório da Cachaça, Gaudí e está com um novo projeto. 

Os pais de Sérgio Ribeiro Monteiro eram primos de primeiro grau e tinham nome quase idênticos: Eugênia e Eugênio Costa Monteiro. Ela era natural de Monte Santo de Minas e filha do “Custodinho da Barra”. Eugênio, guaxupeano, foi médico e teve consultório no “Castelinho’, ao lado da Catedral. Casaram-se em 1938 e tiveram sete filhos. Um faleceu. Os três primeiros nasceram em Guaxupé: Maria Alice, Maria Luíza e Fernando. Os outros, Antônio Luís, Sérgio e Marcelo são de São Paulo, onde Eugênio trabalhou como servidor público obstetra, sanitarista e clínico geral.

Nos 29 anos em que a família morou na capital paulista, Sérgio estudou no colégioGodofredo Furtado. O Científico foi concluído no Liceu Salesiano Nossa Senhora Auxiliadora, em Campinas. Em São Paulo, fez parte da primeira turma que se formou na Escola Superior de Comunicação Social da Faculdade Anhembi. Trabalhou como auxiliar de fotógrafo em duas agências de publicidade, incluindo a conceituada Casablanca. Morou em Londres por seis meses, trabalhou em um restaurante em frente ao atual Hide Park. Juntou alguns dólares e fui conhecer Barcelona, a terra de Gaudí. Passou por Amsterdã e encerrou a viagem em Marrocos.

Em 1975, o médico Eugênio se mudou para Mococa. Um ano depois, faleceu em Guaxupé. Pela necessidade de cuidar da fazenda Santo Antônio Limeira, em Guaranésia, Sérgio veio morar em Minas. Por quatro anos, aumentou a produção de café e foi o primeiro produtor a entregar os grãos na Cooxupé.

Distante da namorada paulistana Ciça (Maria Cecília Freitas Silveira), eles se casaram em 1977 e passaram a viverna fazenda.

Com o inventário após a morte do pai, Sérgio ficou com 30% da fazenda em Guaranésia. A nova propriedade ganhou o nomede Granja Arco-Íris, em 1979. Parte dos irmãos herdaram a fazenda Santa Terezinha, no km 8 da rodovia Guaxupé-Tapiratiba, vendida posteriormente para o Grupo Olavo Barbosa.

Em 1979, uma forte geada na região comprometeu seriamente a produção de café. Da média de 1.400 sacos anuais, foram colhidos apenas cinco na safra seguinte ao incidente. Na época, um plano do governo federal, através do Instituto Brasileiro do Café, oferecia crédito para a recuperação da lavoura. Porém, pendências financeiras fizeram os proprietários perderem a qualidade de mutuários do Banco do Brasil. Sem nunca ter bebida cachaça, mudou de ramo e montou uma destilaria.

Uai de Veneza

Sérgio eixou então de plantar café e se valeu dos inventivos do Pro-Álcool. Por meio de umfinanciamento de máquinas via BNDES,fundou uma destilaria. Sem entender dessa área, pesquisou e fez cursos. Mesmo assim, a cachaça da marca Minas Uai era inicialmente“horrorosa”, na opinião dele. Tinha uma brincadeira sobre isso: quem tomava a chacaça no Bar do Gallate, ia e voltava em dois segundos até a Praça da Catedral.

Com aprovação do Finame, as máquinas foram adquiridas naFercon, do produtor rural Fernando Leite Ribeiro, que também dava assistência aos novos alambiqueiros. Pela insistência em querer aprender tudo muito rápido, Fernando o apelidou de avis rara. Sete guaxupeanos e guaranesianos fizeram esse mesmo investimento, mas somente Serjão continuou alambiqueiro.

Ele fez cursos de cachaça artesanal na Universidade de Lavras, Ufla, com a conceituada doutora Maria das Graças Cardoso, uma grande referência nesse tema.Enfrentouuma concorrência acirrada, diante de produtos de baixa qualidade e preço insignificante. Idealista, queriauma cachaça de alta qualidade e valor acessível.

A marca Minas Uai foi presente do amigo Daniel Perocco, de Guaranésia, que se mudou para Veneza, em 1987, para trabalhar com confecção que teriam a marca Minas Uai. Sérgio gostou dessa proposta e ganhou a logo. No início, os rótulos das garrafas eram feitos em silkscreen, com tecidos da Santa Margarida.

Uma das maiores empresas importadoras de vinhos e bebidas de São Paulo, a Casa Prata, propôs uma joint venture. A empresa assinaria o rótulo. Em 1989, o plano Collor confiscou a poupança dos brasileiros, e o negócio não prosseguiu. Serjão passou a produzir menos e apostava na qualidade, com um valor a mais. Teve dificuldade de vender. Fez brindes para empresas, em que rótulos tinham nomes de pessoas.

Foi nessa época que ele se mudou da fazenda para Guaxupé. Pai de três filhos, Renata, Víctor e Sandra Maria, o casamento com Ciça chegou ao fim e foi mantida uma amizade que se mantém até hoje.

Em 1995, Serjão fundou o Empório da Cachaça na rua Bárbara Heliodora, Vila Rica.  Um dos diferenciais foi montar um alambique funcionando no espaço. Em frente ao Empório, o Aruba Café, com dois sócios, não deu certo. Segundo Sérgio, problemas de saúde na família, o levaram a encerrar atividades no Empório. E assim, o alambique voltou para Guaranésia, mantendo uma pequena produção de 6 a 7 mil litros ao ano.

Arte no Guadí

Uma das marcas de Sérgio Monteiro é a ousadia. Em 2003, construiu um anexo no terreno do Palácio das Águias, onde funcionou o Bar Café Gaudí. O conjunto de prédios históricos do Palácio das Águias recebeu vigas e estruturas. Na véspera da inauguração, exatamente 18 horas antes, Serjão estava em Guaranésia, quando jogaram uma garrafa na perna dele. Teve fratura exposta e usou gesso em toda a extensão da perna ferida.

Amigos e filhos tentaram manter a data da inauguração, mas não foi possível, masoprometido aniversário de 90 anos da mãe Eugênia aconteceu no Gaudí.Somente seis meses depois o espaço foi aberto, em maio de 2004. Por ser patrimônio histórico, deu o que falar. Em uma matéria na revista Atitude Interior, Sérgio respondeu a críticas: “Em vez de jogarem pedras, trazem pra mim, eu estou precisando”.

No Gaudí, a decoração era diferenciada, a música seleta e a gastronomia se tornou um atrativo. Foi nessa boa fase que Sérgio conheceu a atual companheira Adriana de Souza Coelho. O Bar Café Gaudí funcionou por três anos e meio, até a mãe de Sérgio, que era cuidada por ele, quebrar o fêmur e precisar de cuidados especiais. Neste período, a cachaça começou a ser produzida pelo Víctor, que se mudou para a fazenda.

Família e projetos

Sérgio, Adriana e duas enfermeiras cuidaram por quatro anos da saúde de Eugênia Costa Monteiro. Segundo Sérgio, a família decidiu levá-la para uma casa de idosos em Mococa. Cinco meses depois, em 2011, ela faleceu aos 98 anos e o primeiro neto, João Vítor, completava 2 anos.

O filho Víctor se tornou sócio do empresário Reginaldo, da AutoJá, que têm investido na produção e distribuição da cachaça Minas Uai, que também pode ser encontrada em bons restaurantes e bares de São Paulo. “Essa parceria deu um alento grande à bebida. O Victor foi além do que eu fiz. Sou parceiro dele, mas sem nenhum envolvimento na sociedade”, comenta o pai.

Para se manter financeiramente, Sérgio organiza jantares para amigos eeventos, em especial aniversários e bodas de casamento. Em paralelo, já trabalhou às quintas-feiras no Antiquário, fazendo somente beirutes especiais e macarrão. Depois que esse restaurante fechou na cidade,trabalhou no Botequim e no Santa Fé.

Atualmente, ele assina os jantares do restaurante Café com Fruta. O almoço nesse espaço é coordenado pelo sócio. A proposta é oferecer o melhor da culinária italiana. A massa artesanal ou importada recebe molho de tomate caseiro. O filé à parmegiana é totalmente diferente, ele garante. ”Não é apenas o melhor pra mim. É o que há de melhor no mercado”, complementa. A música local é MPB de qualidade, blue e jazz. Com tanto trabalho, o avô Sérgio não conseguiu comparecer no aniversário de um ano do neto Heitor, o segundo neto e filho de Sandra e Caio, moradores em São Paulo. Adriana se tornou parte da família. Estão juntos há 11 anos. Ela é a recepcionista do horário noturno no Café com Frutas.


 

Confira a Galeria de Fotos

Os três filhos: Renata, Víctor e Sandra Os filho Victor e Renata entre a mãe Eugênia Renata, Adriana e Sérgio Eugênia Costa Monteiro chegou aos 98 anos

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