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sábado, 5 de dezembro de 2015

“De todas as pedras que me jogaram fiz uma montanha”

Depois de ter conhecido diversas formas de espiritualidade, como o catolicismo, espiritismo, umbanda, candomblé e evangélicos, KléberSá se encontrou na Cultura Racional. “Respeito todas as crenças e a lapidação dos que estão sofrendo”, ele afirma. 

O avô era rígido como os materiais que ele usava na construção civil, mas foi flexível ao consentir o casamento da filha Maria Nogueira Noronha de Barros Figueiredo Sá com o primo Evaristo Figueiredo de Sá, natural de Caxambu. Os pais de Kléber se casaram em 1940 e tiveram cinco filhos. As duas primeiras irmãs, Elba e Elen, e também o caçula Evaristo, nasceram em Três Corações. Bancário, o pai foi transferido para várias cidades, incluindo Alfenas, onde nasceram airmã Eros e Kléber.

Depois que a família Sá morou em duas cidades do Rio de Janeiro, Petrópolis e Resende, vieram para Guaxupé quando Kléber tinha 9 anos. Ele fez admissão para estudar no Grupo Barão e depois no Colégio São Luiz Gonzaga (E.E. Dr. Benedito Leite Ribeiro, o Ginásio). Após o 1º Científico, ele se mudou para Santos e cursou o Instituto de Educação Canadá. Havia duas opções: seguir Medicina e Engenharia. Não quis nenhuma. Em São Paulo, fezcurso técnico de Publicidade e Propaganda no Colégio Dom Pedro II e estou por três anos no Instituto de Beleza Niasi, para as funções de cabeleireiro e maquiador. Como resultado, foi convidado para trabalhar em uma das maiores redes de beleza da cidade, o salão Jacques Janine.

Como a maioria dos jovens daqueles anos 60, Kléberacompanhou o movimento hippie e a efervescência da política da “Guerra Fria”. Viajou com uma amiga jornalista para o Peru, onde tropas norte-americanas tinham se instalado no país. Em Puno, na fronteira com a Bolívia, foram convidados para se hospedarem na fazenda boliviana de Tereza Baldania, prima do guerrilheiro Chê Guevara. Para não serem confundidos com americanos, usavam um distintivo na cabeça que os identificava como brasileiro.

Os dois hóspedes tiveram receio dos treinamentos de guerra realizados na montanha da fazenda Guevara. Saíram de lá em direção à Arequipa, no Peru. Nesses quatro meses de viagem, passaram fome e ganhavam uns trocados cantando música brasileira em praça e bares.

Voltaram para o Brasil. No Rio, Kléber começou a carreira de modelo, inicialmente pela marca de jeans Dijon. Fez publicidade para a Kolynos, Ford, Chokito, dividiu um comercial de uísque com Juca Chaves e desfilou na Fenit, em São Paulo, onde ele voltou a morar. Interrompeu os estudos e a dança na tradicional escola de Ballet Ismael Guiser e começou a conciliar trabalho e espiritualidade.
 
“Eu quero ser bonito por dentro”

Enquanto trabalhava num salão de cabeleireiro, ouviu clientes comentarem sobre uma “vidente” na zona leste de São Paulo. “Foi a minha primeira experiência mística”, diz Kléber, que foi chamado pelo nome por essa mulher desconhecida, que ainda falou nomes de familiares dele.  A “vidente” antecipou que ele teria uma grande escala espiritual pela frente, começando pelo espiritismo.

A conselho dela, deveria ficar três dias em casa. Assim que saísse, deveria pegar o primeiro ônibus que passasse e descesse no local que o próprio coração determinara. Desceu narua Augusta, entre as alamedas com lojas sofisticadas. Ficou olhando vitrines quando viu uma senhora sair do carro com sacolas. Ofereceu ajuda. Ela, proprietária da loja,imaginou que fosse um candidato à entrevista de emprego. Ele nem sabia dessa vaga.E mesmo sem experiência em vitrinismo,conquistou o trabalho.

O primeiro teste foi fazer a vitrine da primeira loja Tob´sque seria inaugurada. Kléber teve liberdade para inovar e dispensou os cabides usados em vitrines da época. No coquetel de lançamento, com muitos artistas e autoridades, todas as peças da vitrine foram vendidas, exceto um cinto.

Ficou seis anos trabalhando nessa empresa, que lançou outras lojas de rua e de shopping. Em um dos concursos anuais de vitrinista em São Paulo, Kléber ficou em segundo lugar. Mesmo com ascensão nessa carreira, ele sentiu que aquele ciclo havia se encerrado. Pediu demissão. “Eu queria ser bonito por dentro”, justificou a si mesmo.

Nessa fase ele já seguia a umbanda, mas ainda não tinha encontrado um caminho espiritual. Uma amiga o levou ao centro de candomblé Menininha do Gantois. Resistiu para entrar. Só lembra quando acordou nu no meio da roda. Era o Bolar no Santo, o transe que os iniciados passam quando recebem pela primeira vez a energia do seu orixá. No ritual de batismo, passou pela “raspagem do santo” e ficou 40 dias deitado em folhas, aprendendo a língua africana por meio das entidades que se manifestavam.

Teve outra missão que levou algum tempo para ser cumprida. Deveria fazer  um rosário com 150 contas, mas sem amarrá-lo com nó. Tinha também que passar mel no rosário. Enchia de formiga e bicho. Um dia deu certo. Foi um passo no caminho das origens. Um novo ciclo começou. Para garantir segurança, passou em um concurso da Caixa Econômica, onde ficou por 12 anos.

Fuga para não enfrentar a liberdade

No processo de busca espiritual,recebeu casualmente um cordão simples de pescoço, que seria rompido quando uma grande mudança ocorresse na vida dele. Enquanto isso, frequentou diversas igrejas evangélicas e observava as pessoas. Também vinham lembranças dos tempos em que buscou respostas no catolicismo, espiritismo, umbanda e candomblé. A conclusão geral para Kléber Sá é que a maioria dos fiéis buscava religião por medo. Vão aos templos e centros muito mais pela dor e para pedir do que para doar. “É uma fuga para não enfrentar a própria liberdade”, opina.

Em um dia de chuva forte, o cordão no pescoço se rompeu e caiu. Um homem que estava na rua, pegou o cordão,entregou  ao Kléber, e não foi mais visto na rua.Tempos depois, a foto desse homem foi vista no primeiro volume dos livros de Cultura Racional. Era o autor Manoel Jacinto Coelho, médium carioca que foi presidente da Tenda Espírita Francisco de Assis e fundador da Cultura Racional nos anos 30.

Mesmo se identificando com essa filosofia, Kléberfoi comunicado que passaria por outras experiências espirituais para conhecer as diversas maquiagens do bem. Finalmente, encontrou uma identidade espiritual. Na definição de Kléber, a Cultura Racional revela onde o homem veio e para onde vai. Não é nada fictício, é muito real. Provas visíveis e invisíveis comprovam que todas as explicações estão na própria natureza. “Tudo isso me proporcionou uma segurança real, sem medo. De todas as pedras que me jogaram fiz uma montanha. Foi tudo muito vivido e bem construído”, conclui Kléber, que considera uma fortaleza de leveza e tranquilidade.

Casa da Cultura e dedicação à mãe

Em 1990, numa viagem a Guaxupé, resolveu dar um presente àmãeviúva. Decidiu ficar na cidade e cuidar dela. Fez um curso de enfermagem para saber como cuidar de idosos. Para ter renda financeira, montou uma barraca de artesanato e outros produtos na Feira de sábado.

Amigos como Elias José, Santuca e outros o motivaram a trabalhar em um projeto que, posteriormente, originou a Casa da Cultura de Guaxupé.O prefeito Antônio Felipe Zeitune liberou um dos barracões da estação da Mogiana, utilizado como depósito. O prédio ao lado, na atual Secretaria Municipal de Saúde, era aberto e abrigava mendigos e drogados.

Para desenvolver um trabalho social, Kléber contou com recursos da Secretaria de Educação, por meio da diretoraMeíta Remédio. O espaço realizava atividades diversas:corte gratuito de cabelo para quem não podia pagar, aulas de capoeira, artesanato e teatro...O próximo prefeito, Luís Antônio Leite Ribeiro Filho, manteveo projeto. O local, que divulgava as atividades e produtos turísticos do município, ganhou o nome provisório de “Espaço Arte Artesanal Dr. Albertinho”, em homenagem ao médico radiologista Alberto Carlos Pereira Filho.

No início da gestãoHéberQuintela, o barracão foi fechado e as atividades encerradas. Kléber se reuniu com os dois deputados e solicitou recursos. Assim, no primeiro mandato do prefeito Héber os barracões da antiga Mogianaforam restaurados. A Casa da Cultura (ainda no antigo prédio) ganhou palco. No espaço do jardim, foram plantados 40 flamboyants. Kléber fez concurso e se tornou servidor público da prefeitura. Trabalhou por 14 anos na Casa da Cultura, antes da mudança para o prédio atual.

Paralelamente e durante 24 anos, Kléber se dedicou a cuidar da mãe, até julho de 2013. “Ela foi a minha melhor amiga, diz o filho, que se lembra das leituras preferidas da mãe: livros de Cultura Racional, orações para quem precisasse e piadas.

“Ninguém nunca morreu de rir”, ela dizia. Um mês antes de falecer, pediu um novo livro de piadas. Como havia algumas eróticas, não queria que os 9 netos e 16 bisnetos soubessem que ela gostava de piadas picantes.

Kléber afirma que tem uma família maravilhosa.  Assim como a mãe, “Meu pai foi o meu melhor amigo. Um homem incrível, sem preconceitos”.  Ele ainda considera queo amor existe quando a gente consegue vencer o mal em si mesmo.

“Agradeço muitíssimo a minha amiga incondicional de todos os tempos Lucineia (do Correio Sudoeste) e as todas as formas de expressões físicas e metafísicas que me auxiliaram e me libertaram para um voo eterno”, encerrou Kléber.


 

Confira a Galeria de Fotos

Maria e Evaristo sentados e os cinco filhos: (à esq.) Evarista, Eros, Elba, Elen e Kléber (à dir.) A mãe e Kléber entre os sobrinhos-netos que seguram cachorros:  Luíza com a cachorra Pipoca, Gabriel segura Piruá, Mário no colo com Amendoim Avó com os bisnetos Maurício, Marina, Helena e a neta Elba Cristina (de óculos)

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