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sábado, 28 de novembro de 2015

Pioneira de lingerie na região chega ao Japão

Há 32 anos, Francisca Cândida Bueno foi pioneira na produção de lingerie na microrregião do Sul de Minas. Ela morava em São Pedro da União, superou grandes desafios, foi estilista autodidata e hoje se prepara para atender clientes no Japão.  

Por um longo período, a família Bueno passou por diversas mudanças de cidade. Nascidos em Juruaia, o casalJoão CândidoBueno e Luzia de Iório Bueno morava em um sítio de Nova Resende,onde tiveram oito dos dez filhos: Hilda, Mário, Hélio, Francisca, Elza, José Carlos (já falecido), Camilo e Pedro. Até os 4 anos de idade, Francisca ficou em Nova Resende, quando os pais retornaram para Juruaia, a terra natal da irmã Maria das Graças. Quatro anos depois, a família foi para São Pedro da União, onde nasceu a caçula Zilda.

Determinada a concluir o segundo grau, Francisca morou em Guaxupé. Nessa época, namorou e se casou com o guaxupeano João Lopes. Depois de um ano em Campinas, o casal optou por residir em São Pedro da União e tiveram três filhos: João Paulo, Patrícia e Paulo Henrique. O marido era produtor e comerciante de mudas de café. Francisca aprendeu a costurar com a irmã Hilda. Eram roupas convencionais para mulheres e homens.

Incentivada pela mãe Luzia, que trabalhava em São José do Rio Pardo com uma costureira que confeccionava lingeries, Francisca passou a revender peças femininas. Na época, eram apenas calcinhas. Diante de uma boa aceitação em São Pedro, começou a comprar peças cortadas para costurar. E assim, a partir de 1983, ela se tornou a pioneira de lingeries na microrregião do Sul de Minas.

“Os modelos eram muito simples”, ela conta. Algumas amigas, como a enfermeira do hospital local, Lourdes Amâncio, pediam paraconfeccionar sutiã e levavam modelos das poucas revistas disponíveis. Outra amiga, “Rita do Firmino”, retirava argolinhas de peças usadas, e o novo sutiã ganhava um elástico encoberto por tecido. Francisca declara que já demorou mais de duas horas para fazer um sutiã: “Eu não sabia qual elástico usava primeiro.”

Felizmente, teve ajuda de várias pessoas. Ela viajou pela primeira vez a São Paulo na companhia da amiga Neuza de Lima. Ambas nem sabiam onde comprar tecidos e aviamentos. Em lojas do Bom Retiro e do Braz exigiam cadastro. “Eu não tinha nem empresa ainda”, ela se lembra, “Só tinha vontade de aprender”, acrescentou. Nessa oportunidade, comprou principalmente retalhosde um saldão. Em outras viagens, o marido João a acompanhava. As crianças pequenas ficavam com familiares e amigas, como a costureira Tânia Marcelino. À medida que a confecção foi se expandindo, aumentaram também os desafios.
           
“Eu não sabia e ainda tinha que ensinar”

Por um bom tempo, a produção funcionava na sala da residência e só atendia clientes de São Pedro da União. “Naquele tempo, segundo Francisca, não tinha tanta revista quanto hoje, muito menos internet. Eu criava, desenhava, cortava e costurava”. Um dos desafios para esta estilista autodidata foi ensinar o trabalho à primeira costureira, Silvone Miranda. 

Francisca investiu tempo e recursos para se aprimorar. Estudou, fez cursos e adquiriu a primeira máquina overlock na Ismaq. “Contei muito com a ajuda do Ismar (Braz Gomes) e sou muito grata a ele e a outras pessoas que me ajudaram, principalmente, no início.”

Perseverança é a palavra que resume tudo. A sala da casa se tornou pequena e a confecção migrou para um espaço comercial, fortalecendo o nome da empresa: Primavera Moda Íntima. As viagens para São Paulo, de ônibus, passaram a ser mensais. 

Francisca relata outro grande desafio enfrentado por 20 anos. Era a estrada de terra de São Pedro a Guaxupé, que tinha muita poeira e uma serra com curva bem acentuada. Quando chovia, era muito barro e carros encravados, em aproximadamente 25 km. Em linha reta são 21,32 km, que foram asfaltados em dezembro de 2011.

A empresária considera que os seis primeiros anos da primeira fábrica de lingerie da microrregião foram os mais difíceis.

Quando surgiram os “ônibus de excursão”, de Guaxupé a São Paulo, facilitou o trabalho. Com a contratação da segunda costureira, a fabricação começou a aumentar e surgiu a primeira representante, Selma Messias, em Guaxupé, que continua atuante até hoje. Mais tarde, os produtos chegaram a São José do Rio Pardo com a ajuda da mãe Luzia e as irmãs Hilda, Maria das Graças e Zilda, que se tornaram representantes na cidade. Em seguida, a marca ganhou também revendedoras em Vargem Grande do Sul, Mococa, Tapiratiba e outras cidades.

Há 13 anos Francisca se mudou para Guaxupé, mas a loja de fábrica Primavera Moda Íntima foi inaugurada tempos depois, em 2005. Outro desafio superado foi a localização da loja fora dos centros comerciais de Guaxupé. Na época,Juruaia se fortalecia como um polo de lingeries e Guaxupé já tinha lojas e confecções, diferentemente de Nova Resende, que começou há 8 anos a capacitar profissionais para essa área.

Para participar desse mercado competitivo, que exige inovações constantes, Francisca participou de vários cursos de aprimoramento profissional e dos eventos que Guaxupé ofereceu nesse segmento. A marca e os diferenciais da empresa ficaram mais conhecidos com essa exposição, juntamente com outras ações publicitárias, como outdoor, anúncio em jornal, site e redes sociais. “Agora, a internet ajuda muito a gente a aprender e divulgar produtos”.

Os três filhos de Francisca também são parceiros. João Paulo fez Ciências da Computação, trabalha em TI e supre as necessidades da loja nesse setor. Patrícia é jornalista e assessora de imprensa. Paulo Henrique, graduado em Administração de Empresas, trabalha com a mãe.

Estrutura atual

Hoje, a quantidade de 16 máquinas é maior do que os atuais 10 colaboradores. É um panorama bem diferente da dificuldade inicial encontradaem Guaxupé. Foi difícilconseguir costureira, mesmo havendo na cidade curso de especialização. Tina foi a primeira colaboradora contratada na cidade. Na sequência veio Arlete, que já soma 12 anos.  

Francisca tem o mérito de manterfuncionários de longa data. A costureira Rosana já trabalhava em São Pedro e é parceira há mais de 10 anos, assim como Kátia Ribeiro que trabalhou uma década com Francisca. Sandra tem 8 anos de casa. Valéria vai fazer 6. Suélenjá ultrapassou os 4 anos. A mais recenteé a atendente Bruna.

Esta equipe integrada possibilita a confecção deprodutos com qualidade, conforto e diferenciais. Além do padrão convencional, há também tamanhos especiais para M e G, do nº 48 ao 52.É avaliado como saldo positivo ouvir o cliente pedir um “M ou um G maior”.

Outra característica é ter conquistado o público masculino, que responde hoje por 20% do total de clientes. “Antes, era a mulher (esposa, mãe, irmã, filha) quem comprava para os homens. Com o tempo, eles passaram a frequentar a loja e escolher o modelo e o tecido de uma cueca, um pijama ou uma sunga”.

O mix de produtos é diversificado. Inclui a moda íntima, infantil, praia e fitness. “Sempre tive muita curiosidade de aprender”, revela a empresária que atualmente está seguindo a tendência strappybra, o sutiã ou corpete com várias tiras ou alças, indicado para usar com regatas e alguns vestidos da estação primavera / verão.

Em vez de concorrentes, o polo de lingerie em Juruaia é um aliado, na avaliação de Francisca. “Não preciso mais viajar e comprar acessórios em grandes cidades”. Os tempos mudaram e os fornecedores dessa área, especialmente de São Paulo e Santa Catarina, fazem entregas locais. Outra mudança é a facilidade de atender clientes regionais, em todo o país e pelo mundo afora. Várias clientes já levaram lingeries da Primavera para outros países.

Além de Guaxupé, várias cidades do interior de São Paulo, incluindo a capital, recebem produtos via revendedoras. Há muitos anos, São José do Rio Pardo pode ser considerado um expressivo ponto de venda. Do interior de São Paulo, a marca chega ao estado do Paraná. O próximo destino é internacional. Uma moradora de Vargem Grande do Sul se mudou para o Japão. Em contato com brasileiras que moram lá, concluiu que aslingeries japonesas não supremo padrão feminino brasileiro de conforto e beleza.

Surgiu então a oportunidade comercial de encaminhar a primeira remessa de lingeries para o Japão; agora em novembro. De início, foi a linha básica. Aos poucos, vai avançando, acredita Francisca. 
 

Confira a Galeria de Fotos

Colaboradoras em ritmo de trabalho para o final de ano Há 20 anos, Francisca no local de trabalho em São Pedro da União No início da fábrica em Guaxupé, o estoque era guardado em caixas Os dez filhos de Luzia, a 3ª à esq. e atrás, próximo de Francisca, a 1à esq. e atrás

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