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sábado, 21 de novembro de 2015

“A gente tem que ir além do limite”

Há 50 anos, Ismar Braz Gomes se tornou especialista em máquinas e até hoje participa de cursos para se atualizar nessa área. Foi professor por36 anos e manteve uma escola de datilografia na cidade por 28 anos, junto com a esposa Rosita.Ele só não confia na internet e justifica: “já desmanchou e ainda vai desmanchar muito casamento”.


Os quatro avós são portugueses e os descendentes brasileiros. Wilce Marques Gomes e Saturnino Gomes Filhomoravam no sítio Barreiro, em São Pedro da União, quando tiveram os três filhos: Ivan Carlos (já falecido), Ismar (1947) e Itamar.Até os 9 anos, Ismar estudou na escola do Alto da Serra e foi aluno de Fiica Sales.Com a mudança para Guaxupé, foi transferido para o Grupo Coronel. Depois, estudou no Colégio São Luiz, o Ginásio, e na Academia de Comércio São José.

Ele moravanas dependênciasda Pensão Aurora, quepertencia à avó Maria Conceição dos Santos, também proprietária do Bar e Restaurante 51, onde hoje é a Acicredi. Na adolescência, os três netos e irmãos trabalharam como atendentes no bar.Ismar começou aos 15 e ficou no restaurantepor três anos, até se mudar de Guaxupé.

Antes de concluir o segundo grau, recebeu em casa um“inspetor” da empresa Olivetti, marca italiana de máquinas. Era um gaúcho interessado em adquirir uma boa cachaça. Estavaem Guaxupé para atender a loja Brasília (Máquinas), de Walmor Russo, que tinha 12 vendedores e clientes em 32 cidades da região. Entre goles de cachaça e uma linguiça mineira oferecidasao Inspetor, foi revelado que a loja precisava de um técnico em máquinas. 

Um mês depois, Ismar viajou de ônibus para São Paulo. Ainda não conhecia a cidade. Na rodoviária, vestiu um terno e foi para a entrevista de emprego. O primeiro teste consistia em desmontar um aparelho mecânico. Ele tirou e manteve todas as peças sequenciadas. Quando foi montar o aparelho, teve facilidade terminou antes do tempo marcado. Estava contratado.

Pensou que já fosse trabalhar em Guaxupé, mas ficou um ano e dois meses em São Paulo fazendo cursos de mecânica, elétrica e eletrônica. Ele que não era fumante teve a vantagem de ter um salário um pouco maior.

Foi na capital paulista que Ismar viu o primeiro comercial de TV, do extinto Mappin. Também na telinha e em preto e branco assistiu o primeiro homem descer na lua, em 1968. De perto, podia ver o metrô – o tatuzão – ser construído. Só não via a namorada que ele deixou em Guaxupé.

“Eu gosto de serviço que aparece”

Quando retornou, aos 20 anos,concluiu os estudos e se formou Técnico em Contabilidade, mesmo sabendo que não exerceria esta profissão:“Eu gosto de serviço que aparece!”. E apareceram serviços por uma grande parte da vida. Enquanto Ismar fazia faculdade de Matemática na Fafig, ele fundou, há 48 anos, a Ismaq, em uma época em que era costume os pais darem máquina de costura quando as filhas se casavam.

O endereço da empresa continua o mesmo até hoje: rua Dom Inácio. Também não mudou o prazer de observar a reação de muitos clientes quando vão buscar uma máquina que foi levada para conserto. Muitos nem reconhecem o maquinário. Ele desengraxa e engraxava novamente.  Ganha outro cheiro e aparência.

Durante o dia usava uniforme de mecânico e de noite dava aulas. Exerceu o magistério por 36 anos. O primeiro convite para dar aula foi feito pelo amigo e arquiteto Mário Gonçalves, que recebeu proposta de trabalho em uma recém-inaugurada faculdade de Alfenas e passou para Ismar o cargo de professor da Escola Estadual Nossa Senhora Aparecida, em 1972.

Deu aula de desenho industrial, matemática, física, práticas comerciais e educação artística. Praticamente lecionou em todas as escolas estaduais de Guaxupé, na Academia de Comércio e em Tapiratiba. Teve até que comprar um Volks 1.300 L para viajar e se deslocar até as diversas escolas. (Depois de 40 anos, o carro se mantém conservado).

“Eu dava nota antes da prova, pelo jeitão de cada um. Pegava os alunos no rascunho e passava a limpo. Já arrumei serviço para muitos. Tem ex-alunos meus trabalhando hoje pelo mundo”, conta Ismar. Na época, ele se interessou por fazer um curso de teatro em Belo Horizonte, para poder transmitir ainda mais conhecimento nas aulas de Educação Artística. Na opinião dele, estudar e praticar artes cênicas ajuda a enfrentar o público e melhora muito a comunicação.

Foram 40 dias de curso, que contou com a participação de dois atores da primeira versão da novela Pecado Capital, da TV Globo. Ele conta que os acertos e erros dessa novela eram discutidos. Ismarutilizou essa mesma técnica para ensinar. O apresentador de TV, Sulino, e o atual diretor do Polivalente, José Raimundo Borges, foram alunos de Ismar.

Na área da comunicação, Ismarajudou a criar dois jornais impressos, o Vesgo e o Museo, com o amigo Eloadir de Almeida Vieira. Essas duas publicações não tiveram o sucesso esperado. Depois, quando Eloadir se tornou proprietário do Correio Sudoeste, há mais de 42 anos, Ismar consertou várias máquinas do jornal.

O espírito empreendedor ainda levou Ismare esposa Rosita a abrirem e manterem por 28 anos uma escola de datilografia na cidade. Era um dos principais cursos técnicos dos anos 60 a 80. Atualmente, ele discorda que a máquina de escrever tenha se aposentado definitivamente. Ainda é possível encontrá-la, em funcionamento,em cartórios. “Documento feito em computador não é confiável”, defende.

Famíliae vida social

O avô paterno de Ismar, Saturnino Gomes da Silveira, teve importância histórica em Guaxupé como um dos fundadores da Cooperativa dos Cafeicultores, a Cooxupé, há 83 anos. Com propriedades rurais no município de São Pedro da União e Passos, tornou-se conhecidocomo produtor de aguardente, melado, rapadura e açúcar mascavo. Até 1965, a linha de trem do distrito Biguatinga contribuía para a comercialização desses produtos.

Também foi em 1965, aos 18 anos, que Ismar conheceu Maria Rosa, Rosita, a futura esposa.Ele participava de uma apresentação teatral na igreja São Francisco, Vila Carloni. “Olhei para a plateia e vi uma moça com vestido tubinho”, diz.Depois de dez anos de namoro, casaram-se em 1975e tiveram dois filhos. Cristiani é biomédica, acupunturista e há três anos integra o Comitê Olímpico Internacional em Hamburgo,Alemanha. Carlos atua na área de informática da Unesp de Franca.

Pelo longo tempo em que Ismar exerce trabalhos sociais em Guaxupé, essa atividade se tornou familiar. Há mais de 40 anos, ele mantém vínculo com a Escola Profissional Nossa Aparecida, mesmo depois que deixou de dar aulas. Em 1981, foi um dos fundadores da Associação Pró-Carente, atuante ainda hoje. A terceira entidade social que ele continua contribuindo é o SOS / Casa da Criança.

Acompanhando o desenvolvimento

Nesses 50 anos de vida profissional, incluindo o curso de formação em São Paulo, Ismar foi se adaptando à evolução das máquinas de costura. Há meio século, os principais tecidos eram o brim, o linho, a camisira e pano de cortina. Hoje, predominam os tecidos sintéticos e máquinas especiais.

É um mercado que passa por transformações rápidas. Há cinco anos, era consideradatop de linha uma máquina que fazia 3.500 pontos por minuto. Agora, diz Ismar, as mais avançadas fazem 7 mil pontos. A Ismaq acompanha essas mudanças como representantes das marcas Singer, Elgin e Sun Special. Os cursos de aprimoramento profissional são constantes nessa área.

Ele também acompanhou ativamente do crescimento produtivo de lingeries na região, não só comercializando e consertando máquinas, como também formando profissionais nessa área. A primeira confecção surgiu em São Pedro da União há mais de 25 anos, ele afirma. Depois é que Juruaia e também Guaxupé passaram a investir nesse segmento para poderem inovar em um período de crise econômica.

“A crise sempre exigiu e força a gente a criar e a crescer”, define Ismar, que foi convidado pelo prefeito de Nova Resende, em 2009, para iniciar um polo de confecção no município. “Começou com duas professoras. No começo e durante três anos, fui 28 vezes lá. Hoje, tem 78 confecções de lingerie”, ele informa. Em 2015, foi realizado o oitavo evento anual na cidade.

Uma das máquinas que Ismar não confia é o computador, além de considerar que a internet já destruiu e ainda vai destruir muito casamento. No entanto, ele é um usuário do Facebook. Ao mesmo tempo, preserva um estilo de vida rural no antigo sítio Barreiro e Ouro Verde, em São Pedro da União, onde cultiva feijão, soja, trigo e girassol. Ismar também não para de estudar. É um dos alunos da Fati, a faculdade da Terceira Idade do Unifeg.
 
 

Confira a Galeria de Fotos

Pais e filhos: Ismar, Carlos,Rosita e Cristiani Maria Rosa e Ismar em 1975, quando se casaram Com 20 anos no curso na Olivetti, em São Paulo Os irmãos Ismar e Ivan no Bar e Restaurante 51

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