Guaxupé, quarta-feira, 18 de julho de 2018
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domingo, 20 de maio de 2018

Medo da Dola se transformou em admiração

Com sorriso, gentileza e demonstração de amor pelos filhos, a ex-moradora de rua Dola superou diversos preconceitos e recebeu solidariedade de muitas pessoas em Guaxupé, inclusive do Correio Sudoeste. Ela se tornou um símbolo afetivo da cidade.
Dola faz carinho no cachorro Leão
Dola faz carinho no cachorro Leão
Guaxupé recebeu a triste notícia do falecimento da Dola, nessa madrugada de domingo. Seu corpo está no Velório Municipal e o enterro está marcado para às 17h. Abaixo, republicação de uma matéria divulgada em outubro de 2015. À família de Dola nossas condolências e que ela descanse em paz. Maria das Dores Matheus Gomes, a Dola, tem (apenas) 67 anos, conforme constam em registros oficiais. Ela era a caçula dos nove filhos, todos nascidos em Areado, do casal Justina Justiniana e Dario Matheus Gomes. A única dos irmãos que nasceu com problemas mentais. Começou a andar aos seis anos, quando a família se mudou para Guaxupé. Aos sete, já manifestou amor pelos animais. Porém, puxou o rabo de um cavalo e levou um coice.  As primeiras palavras vieram aos nove anos.  .

Mesmo com cuidados familiares, ela se tornou andarilha na adolescência, despertando preconceito por viver na rua, ser mulher livre, negra e pobre. Ao mesmo tempo, contou com a solidariedade de muitos moradores da cidade. Foi mãe aos 18 anos, de pai desconhecido. A criança, Ângela, não sobreviveu.

Talvez pelo forte sentimento de maternidade e perda da filha, Dola começou a beber aos 19 anos, quando passou pela primeira internação. Nessa época, o pai morreu e ela morava em um ônibus da empresa Nasser, que tinha oficina mecânica na rua do campo, o Estádio Municipal.

Andava por toda a cidade, sempre acompanhada por cães de rua, um saco nas costas e uma canequinha de alumínio usada para pedir água e bater na porta das casas. Com naturalidade, tomava banho na fonte da cidade e fazia necessidades em locais públicos. Para se sentir mais bonita, pintava o rosto moreno de talco branco ou farinha de trigo, gerando assim medo em várias gerações de crianças que diziam: “Quem tem medo da Dola?”

A proprietária da Pensão Sucuri, Conceição Maria Serafim, a dona Nina, afirma que ela não agredia ninguém, mas se defendia, às vezes até jogando pedra, quando era incomodada por crianças e adolescentes. Não há registros se ela foi abusada.

Carlos foi o segundo dos sete filhos. Depois veio Fátima, adotada por uma família de Alfenas. Os dois próximos filhos são atualmente os cuidadores e responsáveis pela mãe. Alexandra é mais conhecida como Sandra. João Batista é apelidado de João da Pinta. A sexta filha também foi adotada. Já a morte do caçula Fernando causou muito sofrimento para a mãe. 

Nesse período, a redação do Correio Sudoeste era em uma das esquinas da praça Paulo Carneiro, ao lado Pensão Sucuri. Dola passava por lá quase diariamente para beber água, tomar café, comer pão e lanches. Para os  adolescentes da empresa deixarem de ter medo dela, o proprietário Eloadir de Almeida Vieira pedia que os jovens, inclusive o filho Luciano, servissem Dola. Primeiramente, ela dava água e comida aos filhos, depois aos cachorros.

A esposa de Eloadir, Marizete dos Santos Vieira, conta que um dia Dola apareceu desesperada, pedindo socorro. Tinha um corte e sangue na cabeça. Pela dificuldade que ela sempre teve para falar, conseguiu informar que a pessoa que estava cuidando do filho deu café com pinga para a criança dormir.

Foi providenciado um táxi para levar Dola ao hospital e acionada a Ação Social da prefeitura para ajudar a criança. Dias depois, Dola ficou sentada por um longo tempo na entrada da Pensão Sucuri, chorando muito pela morte do filho.

“Do jeito que eu fui criado era pra ser um marginal”

O médico Fernando Celso de Andrade Filho, já falecido, realizou a maioria dos partos de Dola, o que a levava a ir na casa dele. A esposa Marina Guidorizzi, dona Nininha, conta que Dola não fazia nenhum pedido e estava sempre sorridente. O que fosse oferecido ela aceitava. Se o momento era inoportuno, percebia a situação e ia embora, mas retornava.

Em uma das visitas, dr. Fernando a convidou para um café, explicou o que era uma laqueadora de trompas e propôs esse procedimento. Dola ficou silenciosa. Não concordou, nem discordou. A cirurgia foi realizada e, posteriormente, ela passou a andar pelas ruas com uma boneca e um cachorro nos braços, como se tivesse tido outros filhos.

Dola passou por diversas internações fora de Guaxupé. Em uma das cidades, ela conseguiu fugir, foi atropelada e teve consequências graves. Assim que voltava a Guaxupé, a primeira atitude era procurar pelos filhos. João se lembra quando a mãe o levava no colo para passear e o deixava na casa de alguém conhecido; mas voltava para buscá-lo. 

Há poucas informações, inclusive na família, sobre Carlos. O casal Mafalda e Moacyr, ex-proprietários da loja Mini Modas tem boas lembranças. “Ela carregava o João no colo, sempre limpinho e cheiroso”, diz dona Mafalda, que oferecia banho à Sandra: “Ela deixava o banheiro limpo, mostrando responsabilidade para uma criança de seis anos”.

O casal também comenta sobre a boa memória de Dola. Se prometiam uma determinada roupa da loja, ela voltava na época combinada e descrevia o modelo. E não era apenas uma pedinte. Muitas vezes, oferecia para fazer serviços na casa deles e se ofendia com a recusa. Quando se aborrecia, uma das formas de acalmá-la era passar esmalte nas unhas dela.

João também agradece ao casal Candelária e Abrão Calil, onde ele sempre tomava café da manhã e ganhava cadernos escolares.  Sandra faz outros agradecimentos: dona Nair e a filha Samira Jorge Moisés, Dalva e Miguel Ricciardi, Cuíca e muitas outras pessoas.

Com a morte da mãe Justina, em 1981, os filhos de Dola foram morar com dois tios maternos José e Geraldo Matheus.  Pode ter sido nessa época que o filho Carlos ficou desaparecido por sete anos. Sandra e João começaram a trabalhar ainda crianças. Ele foi engraxate, vendedor de jornal, trabalhou  na roça.

Aos 12 anos, João deixou a casa dos tios para morar na rua. Na primeira noite, com muito frio, dormiu no alpendre de uma casa, coberto com papelão. Ele trabalhava e se sustentava. Uma família quis adotá-lo, mas ele se recusou. “Do jeito que fui criado era pra ser um marginal”, ele diz.  Aos 16 anos, foi morar na pensão da dona Rogéria, que o tratava como filho.

Assim que Sandra se tornou maior de idade, foi buscar a mãe que estava internada. Somente aos 30 anos, a filha Fátima conheceu Dola. Depois, quando estava internada em Alfenas, mãe e filha moraram juntas por um mês e meio, até João buscá-la. A casa era pequena, Fátima estava casada e com dois filhos.

Dola sempre foi protegida em Guaxupé. Muita gente a defendia, talvez porque fosse a única moradora de rua que não brigava, exceto se era incomodada. Até para entrar no Pag-Leve ela pedia licença. 

Continua sorridente e vaidosa

Depois que passou a ter residência fixa na casa dos filhos, Dola continuou andarilha. João informa que muitas vezes ela se faz de boba com a intenção de sair de casa. Espera a família dormir e pega a chave. O corpo curvado e a dificuldade para andar não a impedem de fazer longos percursos e subir rampas, debaixo de um forte sol.

Há mais ou menos cinco anos, ela abriu o portão de uma casa, entrou e foi agredida por um pitbull. Os moradores estavam fora.

Foi socorrida por vizinhos. E dois anos atrás, quando morava no bairro Colmeia, ela caiu, teve fraturas e passou por uma cirurgia. Acreditaram que não andasse mais. No entanto, continua passeando diariamente, mas não pinta mais o rosto. As crianças de hoje não têm mais medo da Dola, que continua na lembrança de muitos. No extinto Orkut, a página “Quem tem medo da Dola” chegou a ter cinco mil seguidores.

Dola tem onze netos: seis filhos de Sandra, três de Fátima e um de João. Considera-se que Carlos tem apenas um filho. Ele está em Brasília e já foi morador de rua. Também já tem três bisnetos.

Recentemente e depois de 35 anos, Fátima veio a Guaxupé reencontrar a família. Foram momentos de grande emoção, que estão se repetindo em outros encontros. A preocupação agora é evitar que Dola tome bebida alcoólica. Há comerciantes que, mesmo sabendo que ela toma medicamentos fortes, vendem a bebida. 

Atualmente, Dola continua vaidosa. Usa brincos, colares, pulseiras... Também mantém o amor pelos animais. Durante as refeições, esconde comida para dar ao cachorro da casa, o Leão. Nas ruas, está sempre sorridente e com boa memória para reconhecer pessoas que tiveram importância na vida dela.

Em 2016, Dola deixará de pagar aluguel e vai morar no Monte Verde. Ela foi uma das 180 contempladas pelo projeto “Minha Casa, Minha Vida”, financiado pelo Banco do Brasil. As casas serão construídas e entregues pela prefeitura de Guaxupé. A família de Dola agradece ao prefeito Jarbas Corrêa Filho e sua equipe pela conquista da casa própria. 

Confira a Galeria de Fotos

Dola faz carinho no cachorro Leão Atrás, os filhos João e Sandra; à frente, quatro netos e a nora Andreia Ela gosta de fazer longos passeios, diariamente Dola com o bisneto Matheus e os netos Carolaine (à esq.), Naiara e Marcos

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