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sábado, 13 de junho de 2015

Casal com padrão de elegância

Com 54 anos de casamento, os companheiros de vida Valdete e Roque
Com 54 anos de casamento, os companheiros de vida Valdete e Roque
Casados há 54 anos, Roque Ângelo Semensato, natural de Caconde, e Maria Valdete da Silva, de Guaranésia, se conheceram depois que suas famílias se mudaram para Guaxupé, nos anos 50. Ela conta com satisfação que continua trabalhando há mais de 62 anos. Roque, que foi barbeiro por 55 anos, gostaria de continuar nessa profissão se não tivesse enfrentado uma enfermidade que o levou a quatro cirurgias, todas na cabeça. Ainda assim, mantém uma memória impressionante e força de vontade diante das atuais limitações da vida.

Neto de italianos, Roque é o primeiro dos nove filhos de Vítor Semensato e Vitória Vitró, que também são pais de José, Maria Tereza, Hélio, Vítor, Luiz, Carlos, Regina e Paulo. Em 1951, o pai, motorista de ônibus, fixou residência em Guaxupé quando houve expansão da estrada de terra até Poços de Caldas, em um percurso feito com uma jardineira Chevrolet. Como filho mais velho teve que abdicar dos estudos para ajudar a família, e se orgulha dessa contribuição.

Valdete é filha do segundo casamento do pai Eduardo Silva com Rivalina Alcântara, que tiveram oito filhos: Maria do Carmo, Maria José, Maria do Rosário, Maria Valdete, Maria Imaculada, Eduardo e Severo. Quando a família veio para Guaxupé, em 1955, Valdete era adolescente e já trabalhava na  bilheteria do cinema de Guaranésia. Foi transferida para o Cine São Carlos, no atual Colégio Objetivo. Um oficial da Polícia Militar a apelidou de papa-fila pela agilidade com que vendia os ingressos. Roque conta que na primeira sessão de domingo, a fila chegava até a casa do Dr. Dolor (em frente à Grannus).

Muito jovem e trabalhando também em horário noturno, esse oficial sempre escalava algum policial ou outra pessoa cumpria a função de acompanhar Valdete até sua casa. O problema maior, conta Roque, era quando ela saía para o trabalho. Muito bonita e bem vestida, diz o marido, quando passava pela rua Tiradentes, geralmente a mãe do empresário Olavo Barbosa a chamava para observar a sua elegância. Na mesma rua, um dentista tomava café olhando o relógio e saía para a área de sua casa para vê-la passar.

Ao descer a Pereira do Nascimento, o pessoal da barbearia que pertencia ao Paulista interrompia o trabalho exclamando: “Corre que a Bellini já vem!”  O apelido é alusivo ao jogador de futebol Hilderaldo Bellini, que andava de forma elegante. Na mesma rua ainda despertava olhares no Salão do Japão, onde Roque trabalhou por sete anos. Nessa época, Valdete trabalha na Companhia Geral de Eletricidade, CGE (onde hoje é a Drogaria Americana).

O namoro começou com ofertas de pastel. Roque pedia para entregar bandejinhas de pastéis para conquistá-la. E conseguiu. Foram três anos de namoro. Ele com 23 anos e ela com 21 casaram-se em 1961 na Catedral de Guaxupé, abençoados pelo padre Timóteo. Valdete optou por um pequeno véu e um vestido longuete, com bordados que ela considerava maravilhosos, feitos pela amiga Renita Mussarra.

Muitas conquistas profissionais  

Depois do casamento, Roque foi convidado para substituir um barbeiro e se tornou proprietário do Salão Balaústre, em frente ao prédio da Fepasa (Secretaria de Saúde). Implantou um novo estilo na cidade: só trabalhava de roupa branca. Por se assemelhar a um médico, Valdete o chamava de cirurgião capilar. E chegou a ser confundido com médico, principalmente depois de ter escrito uma receita em um pedaço de papel de pão para um caminhoneiro que se queixava de “dor de gotas”, uma artrite que também incomodava Roque. Por conhecer os remédios para superar essa dor, ele fez um receituário. O “paciente” adquiriu o produto, teve resultado rápido e atribuiu a cura ao doutor Roque. Em 55 anos de profissão, ele ouvia histórias o dia inteiro. Nem chegava a escutar as fofocas. Guardou as boas lembranças dos clientes e amigos de diferentes padrões financeiros, sociais e culturais.

Quando Roberto Carlos explodia com o sucesso da Jovem Guarda e virou a moda os jovens cabeludos, Roque fez um curso de aprimoramento em São Paulo para esse tipo de corte de cabelo. Aprendeu também a cortar cabelo de mulher. Posteriormente, tornou o salão unissex. Era ele quem cortava o cabelo da Valdete, que além da elegância de Bellini também tinha um pouco do “gênio bravo” do jogador. Ela prefere se definir como uma feminista que lutava pelos seus direitos e dos outros.

Quando a CGE rompeu atividades em Guaxupé, a Bragantina seria a empresa sucessora. Valdete e outros funcionários não aceitaram ser dispensados sem receberem as devidas indenizações. Mantiveram-se resistentes por quatro anos até sair esse pagamento e a Cemig se tornar a concessionária de energia elétrica do município.

Nessa época, o casal já tinha os cinco filhos: Maria de Fátima, Humberto, André Luiz, Alexandre e Andreia. Depois de 27 anos como funcionária da CGE, Valdete resolveu trabalhar por conta própria. Inicialmente, vendia roupa de casa em casa, com ajuda de Maria de Fátima e Alexandre (com 7 anos).  O trabalho deu resultado, ela comprou um fusca e em 1968, fundou em um dos ambientes da sua casa a Valdete Boutique.

Diferentemente das lojas com um só segmento de produtos, na boutique havia diversos produtos para a moda feminina. Se o objetivo era um grande evento ou passeio, os clientes tinham a opção de comprarem todo o vestuário em um só lugar. Certa vez, enquanto Valdete fazia sauna no Clube Guaxupé e não foi percebida pela fumaça do vapor ambiente, o assunto da roda das mulheres era sobre um elegante casamento na cidade, onde uma jovem usou um chapéus glamouroso e adquirido na Boutique, como também todo o traje. Valdete avalia que o bom gosto e qualidade das roupas foram essenciais para se manter no comércio. 

Até as sacolas de loja busca confeccionar manualmente, com plástico resistente, onde anotava com pincel o nome e endereço da loja, para personalizar ainda mais o atendimento.

Depois de 33 anos no Balaústre, Roque mudou o endereço profissional para a rua Dona Mariana, onde atuou por 15 anos com o Roque Salão. Ficou mais próximo de casa, enquanto Valdete fechou a boutique e montou a primeira loja do shopping onde era o Cine São Carlos. Foi inaugurada a Vernissage, que se manteve ali por mais de dez anos. Já em parceria com os filhos Alexandre e Humberto, outra loja da família foi aberta no shopping, o Day by Day, com roupa para o dia a dia e moda country.

O espaço já tinha se tornado pequeno. Eles então reformaram todo o imóvel anteriormente ocupado pela Ford Williams (atualmente Ponta de Lápis). Lançaram então a nova Vernissage, com o mesmo padrão visual de lojas sofisticadas dos grandes centros urbanos Representantes de várias marcas conceituadas, as vitrines, decoração e outros trabalhos receberam diversos prêmios nacionais.

Mudanças na vida
Roque e Valdete estavam bem sucedidos, profissionalmente, quando numa tarde de trabalho ele passou mal no Salão. Com movimentos físicos paralisados e a língua enrolada, o casal agradece a agilidade do médico Rodrigo Monteiro Jacoh que encaminhou Roque para a UTI de Alfenas, onde passou pela primeira cirurgia.

Dias depois, enfrentou uma cirurgia delicada na cabeça, em um hospital de Campinas. Minutos depois de sair da sala de operação, ouviu o filho Humberto comentar que não sabia o nome de uma certa avenida da cidade. O pai sussurrou: “Avenida Andrade Neves”. Mesmo com indícios de que se recuperava bem, em 2008 houve necessidade de outra cirurgia na cabeça. Já a quarta e última operação foi para direcionada para o funcionamento das vias urinárias. “Se eu pudesse, estaria trabalhado até hoje”, afirma Roque, que consegue fazer um passeio quase diário pelo quarteirão, com uso de bengala e conversar com amigos.

Antes, em paralelo às cirurgias e tratamento, ele teve que superar dois vícios iniciados na juventude. Ou parava de fumar e de beber, ou teria pouco tempo de vida.  “Aos 76 anos, parei de fumar de um dia para o outro e não sinto falta”, relata e ainda brinca que nas cirurgias São Pedro o puxava para o alto, mas os médicos tiveram mais força e o fizeram ficar. 

Quando Alexandre inaugurou a Vernissage em São José do Rio Pardo, Valdete ainda tentou manter a loja em Guaxupé, mas não foi possível. “Com muita tristeza, fechei a loja aqui, mas fui muito feliz em mais de 30 anos nesse trabalho.” Hoje, ela continua trabalhando. Ajuda na loja de São José do Rio Pardo e na empresa de comunicação visual do filho Humberto. Ainda sobra tempo para o casal acompanhar as conquistas dos oito netos: Leandro, Isabela, Renan, Eduardo Igor, João Paulo, Humberto Filho, Pedro Henrique e Bruno. Para Valdete, se houver outras vidas e ela puder escolher, voltaria a ser ela mesma, com todas as provações enfrentadas e superadas. “Eu sou feliz e estou vivendo aquilo que eu plantei.”
 

Confira a Galeria de Fotos

Com 54 anos de casamento, os companheiros de vida Valdete e Roque  Foto de casamento em 1961, na Catedral Valdete ganhou o apelido de Bellini pela elegância no andar  Na família de Roque, a sobrinha Célia, sobrinha-neta Natália, a irmã Tereza, a mãe Vitória e a avó Raquel. Os cinco irmãos Maria do Rosário, Severo, Maria do Carmo, Valdete e Maria Imaculada Roque, com roupa branca, cortando cabelo no Salão Balaústre

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