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sábado, 7 de fevereiro de 2015

A menina que virou artista

Caetano De Simone chegou em Vila Costina, zona rural de São José do Rio Pardo, aos 13 anos. O pai retornou à Itália, prometendo buscá-lo, mas foi surpreendido pela guerra. Quando conseguiu regressar, Caetano se casara, aos 18, com Angelina Ferian, também filha de imigrantes italianos, decidindo morar no Brasil. Em julho de 1928, nasceu a 9ª filha do casal, Arlette de Simone, em São Sebastião da Grama, SP (O correto, na Itália, é De Simone, com ‘d’ maiúsculo, mas os descendentes brasileiros foram registrados com ‘d’ minúsculo).

Mudaram-se para Guaxupé em 1930. Caetano De Simone aprendeu a consertar relógios, sozinho, quando ainda era capataz da fazenda em Vila Costina. Em Guaxupé, montou a Joalheria Simone (ponto da Paris Modas), também especializada em consertos de relógios. Ele era louco por cinema. Alugava filmes na Mesbla, em São Paulo, e os exibia para o povo num telão em frente a loja, nas noites de sábado e domingo. Também viajava, junto com os filhos Paschoal e Orlando, para as cidades vizinhas com seu projetor cinematográfico de 16 mm (foto da primeira pág., tela pintada por Arlette do pai revisando filme).

O carnaval começava na porta da joalheria. Seo Caetano montava uma banca para vender lança-perfume, confete e serpentina. “Antes do baile, ele dava uma Rodouro para cada um dos filhos. Foi assim até Jânio Quadros proibir a venda do produto”, afirma Arlette.

Quando a loja dos Sabbag começou a fazer concorrência na venda de lança-perfume, os clientes pediam desconto: “Meu pai vendia mais barato porque ele comprava tudo em grande quantidade, podendo fazer um preço melhor. Tinha preferência na distribuidora em São Paulo, enquanto os Sabbag compravam em São José do Rio Pardo.”

Na última noite do carnaval de 1940, morreu Abadia, irmã do Wadi Sabbag, deixando a cidade de luto, porque eles eram comerciantes bem-conceituados. Como Caetano tinha um grande estoque de Rodouro, conseguiu vendê-lo por um bom preço em São José, à vista. Com o lucro comprou a casa de Ceci Silveira, na João Pessoa, número 39, onde Arlette morou durante 60 anos.

Nessa rua sem calçamento, brincava descalça para não sujar os sapatos de terra com as vizinhas Zélia, Conceição, Mirinha e os irmãos Sadalla, Chafi e Alessi Saad. Pouco tempo depois, calçaram a João Pessoa com paralelepípedos: “Subíamos nas pilhas de pedras, minha mãe gritava do alpendre pra gente descer.”

Na mangueira do quintal aconteciam as brincadeiras de casinha das irmãs Arlette, Derelis e Maria com a amiga Alessi. “Eu e minhas irmãs ficávamos nos galhos mais altos. Ela ficava no mais baixo porque tinha medo de subir na árvore. A gente jogava manga pra ela lá de cima”, conta.

Os tempos de adolescente foram felizes e sadios, os amigos eram muitos. Durante a semana, à noite, os footings na Avenida. Nas tardes de domingo, matinês dançantes do Clube Guaxupé. Às 18h, Cine São Carlos: “O chique era ir na primeira sessão.” O ponto alto da noite eram os bailes da Associação Comercial.
 
Amor à arte

Por ser pequena e magra, Arlette começou a estudar no Grupo Barão somente aos 8 anos, recebendo diploma com 11: “Dona Yolanda Conti Bertoni, diretora, achou que eu não tinha idade pra me matricular, por causa da minha aparência. Só desenvolvi por volta dos 10 anos, depois que operei as amídalas, a primeira cirurgia do recém-formado Dr. Roberto Magalhães Gomes. Tive 3 vezes crupe (ou difteria), doença que fecha a garganta podendo causar asfixia.”

Formou-se normalista aos 18, no Colégio Imaculada Conceição. Por volta dos 14, acompanhando o enterro da amiga Odete Nassif, levou um tombo no cemitério, quebrando novamente o braço, desta vez, o direito. Foi medicada pelo Dr. Antônio dos Santos Coragem, na Casa de Saúde que funcionava perto da Praça da Catedral. Ficou 3 meses sem ir ao Colégio: “Quando voltei, meus dedos perderam a agilidade para tocar piano e meu braço doía muito durante as aulas. Perdi o ano.”

Durante as férias, Arlette fazia aulas de pintura com Aziza Meziara, tomando gosto pelas artes plásticas. Depois de formada, pediu ao pai para estudar na Escola de Belas Artes do Estado de São Paulo, indo morar com Nena (Serafina), irmã mais velha, de 1947 a 1950, na capital paulista.

Para estudar na Belas Artes, foi preciso passar na prova prática, desenhar com carvão a cópia de uma escultura de gesso, em alto-relevo, pendurada na parede: “Nunca tinha feito isso na vida, mas meu desenho foi aprovado, muita gente não passou. Aprendi a desenhar nus artísticos, esculturas, geometria e arte decorativa. Tudo pra mim era novidade, um encantamento.”

De volta a Guaxupé, em 1951, passou a dar aulas particulares de pintura e ajudar o pai no comércio: “Nunca fui mulher de ficar numa loja esperando o freguês, não era minha vocação.” Auxiliada por Maria, irmã mais nova, confeitava bolos artísticos: “Diziam que eram mais caros, mas tinham arte, ficavam perfeitos. Se tivesse fotografado todos os bolos que fiz, dava pra fazer um livro.”
 
Carreira no magistério

Arlette iniciou carreira no magistério com a preciosa ajuda de Yolanda Bertoni: “Sempre me pedia para desenhar cartazes, também fiz o pré-livro do Barão. Ela achava um desperdício eu não ser professora. Como era necessário registro para dar aulas em Guaxupé, ela me aconselhou a pegar uma vaga no primário, em Bom Jesus da Penha, depois seria mais fácil pedir transferência para cá.”

Foi nomeada em Bom Jesus, a partir de 1963. Em meados de 64, Yolanda outra vez aconselhou Arlette a fazer o curso Arte, Trabalho e Vida, em Belo Horizonte: “Landa Miqueri me acompanhou na viagem, ficamos hospedadas na casa do irmão dela, o Pica-palha, casado com Florzinha, ambos muito gentis e prestativos.”

O teste para ingressar no curso era elaborar uma composição e um desenho sobre as mãos. “Um episódio em São Paulo me serviu de inspiração. Quando voltava de ônibus da Belas Artes pra casa da minha irmã na Consolação, uma estudante do Colégio Imaculada Conceição, no Paraíso, falou para uma colega dela, Olha que mãos feias tem aquela moça, as veias são salientes. Ouvi e pensei: você não sabe quantas coisas bonitas e artísticas estas mãos feias sabem fazer.”

Enquanto aguardava o resultado, Arlette continuou lecionando em Bom Jesus. Viajava na segunda, às 5 da manhã, de carona no caminhão de leite do Nardo Alabarce. Um dia, ouviu um barulho de tábua caindo, na esquina onde os Sabbag estavam construindo o prédio. Pela janela viu um homem saindo da construção com uma caixa grande, logo suspeitou de roubo: “Ronaldo foi comigo à joalheria, porque era possível acessar os fundos da loja através do prédio. Descobrimos que o ladrão havia levado todos os objetos de valor, até arrombado o cofre. Meu pai perdeu tudo.”

Durante essa situação familiar bastante delicada, saiu o resultado do concurso. “Passei em 20º lugar, entre 800 candidatos”, informa, e foi morar na capital mineira com o casal Miqueri: “Depois de 7 meses precisei voltar, pois minha mãe adoecera desde o roubo da joalheria.”

Com o auxílio de Joel de Sá, conseguiu a transferência de Bom Jesus para o Grupo Barão, substituindo Geralda Toledo Russo, que se aposentara. “Minha nomeação como professora de Artes Aplicadas foi publicada no Diário de Minas em 1º de julho de 65 porque Joel conseguiu meu atestado de participação no curso Arte, Trabalho e Vida.”

No final dos anos 60, o governo estadual atrasou o pagamento dos professores durante meses. Arlette pediu afastamento sem remuneração do cargo, indo lecionar numa escola particular para crianças especiais, em São Paulo, onde ficou por 2 anos. Numa visita à família, soube que a mãe sentia muito sua falta, retornando a Guaxupé.

Simultaneamente ao Barão, começou a dar aulas de Educação para o Lar como contratada, no Polivalente. O trabalho nas duas escolas acarretou em um calo nas cordas vocais. Cida Guidorizzi, inspetora, conseguiu a transferência de cargo do Barão para o Polivalente como bibliotecária: “Nessa época, trabalhava de manhã, à tarde e à noite, largando de vez as aulas de pintura. Mas nunca deixei de pintar. Sempre tenho um quadro começado no cavalete.”
 
Ano marcante

Em 1973 perdeu a mãe, conheceu Brás Mazzeo, futuro marido, e diplomou-se no curso de Pedagogia da Fafig – Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, atual Unifeg: “Todas as professoras fizeram curso superior para melhorar a remuneração.”

Brás freqüentava muito o Francischetti Lanches (em frente à casa dos Simone): “Ele pediu para o Hélio apresentá-lo a mim e o Walter ajudou.” Casaram-se em 75, meses antes da morte do pai, em 76. Viveram juntos por 22 anos.

Logo após a aposentadoria, em 88, foi convidada pelo sobrinho Henrique Molina para inaugurar o espaço cultural da agência do Banco do Brasil expondo suas telas. “Edna Machado ligou para me cumprimentar pelo trabalho, pedindo para eu retomar as aulas de pintura. Voltei e não parei mais”, relata. Recebeu o título Honra ao Mérito de Destaque Artístico da Câmara Municipal, em fevereiro de 2000.

Atualmente, Arlette mora sozinha, mas a família que é muito grande está sempre reunida. A arte produzida por suas mãos está espalhada por toda a cidade, em casas de parentes, amigos e amigos dos amigos: “Nunca vendi quadro em exposições, somente sob encomenda.”

Na Catedral de Guaxupé, pintou as nuvens do altar de Nossa Senhora, à direita da nave, restaurou as imagens de Nossa Senhora das Dores e as mãos de Jesus carregando a cruz; recuperou todas as imagens da igreja de Nossa Senhora do Rosário, fez o mural da igreja de São Francisco, a imagem de Nossa Senhora do Desterro, no Bebedouro e uma imagem do altar da igreja de Santa Cruz da Prata, além de outros trabalhos dedicados à arte sacra.

A história de Arlette de Simone, repleta de altos e baixos, é exemplo de coragem e determinação: “Pretendo fazer uma retrospectiva da minha carreira artística, expondo desde o desenho da prova de aptidão da Escola de Belas Artes até um inédito, retratando Pedro, que morou muitos anos no Hotel Cobra”, revela, mas sem mostrar a tela inédita.
 

Confira a Galeria de Fotos

Arlette e o marido Brás Mazzeo. 65 integrantes da família De Simone em frente a casa na Rua João Pessoa, 39.

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