Guaxupé, domingo, 22 de outubro de 2017
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sábado, 17 de janeiro de 2015

O sorriso franco é sua grande marca

Lúcia Aparecida Lozano Rodrigues nasceu em 27 de outubro de 1947, filha de Eugênio Lozano e Jamile Salomão Lozano. Esta guaxupeana de sorriso franco é reconhecida na comunidade tanto por seu empenho como professora e diretora escolar quanto pelo trabalho
“Meu pai tinha um posto de gasolina chamado Posto São Francisco, que pegou fogo e nossa família ficou a ver navios. Acho que eu tinha 7 anos e minhas irmãs, Lilian, 5, e Eliana, 4. Éramos acostumadas a ganhar muitos presentes, mas esse acontecimento mudou nossas vidas, meu pai não tinha seguro, nem nada. As duas lojas situadas ao lado do posto também foram incendiadas, uma delas era a loja de sapatos do seo Elias Zaiat. Minha mãe passou a costurar para fora e meu pai a trabalhar como mecânico.

Minhas irmãs e eu ajudávamos nossa mãe nos serviços de casa. Eu já estudava na escola infantil Dr. Joaquim Libânio, situada na Rua Barão de Guaxupé, onde hoje é o cartório. Lembro-me das professoras Nair Bufoni e Vera Souza, e do dia em que fomos até o aeroporto recepcionar o governador Juscelino Kubitschek. E do show que dei certa vez na esquina da Barão, agarrada às pernas da Onofra, que morava conosco e ajudava minha mãe. Eu chorava e gritava porque não queria ir pra escola. Depois, fui estudar no Delfim Moreira. Minha primeira professora foi Rosinha Remédio, uma pessoa inesquecível para mim.

A gente era tão feliz nessa época, parecia que não tínhamos preocupação, não me recordo muito dos detalhes. Em casa não havia televisão, meu pai ligava o rádio e a família toda se reunia para ouvir o Repórter Esso e a Hora do Brasil. Costumávamos sentar com nossa mãe nos degraus da porta da frente para jogar conversa fora.

Brincávamos de pular corda, de pique, de pular amarelinha. Tínhamos uma bola velha, mas ótima para jogar queimada. Eu fazia parte da turminha que morava nas vizinhanças e se juntava para fazer molecagens, como tocar a campainha das casas e sair correndo. Nossas mães queriam matar a gente.

Era uma criança muito alta, eu morria de raiva. Lembro da minha professora do 4º ano do grupo, Teresa Bufoni, que me mandava ficar no final da fila por causa do meu tamanho, e eu não gostava de obedecer.

No curso propedêutico da Academia de Comércio São José tudo era muito bom. A gente chegava mais cedo para paquerar os colegas. Seo Vinícius Eclissato não deixava a gente conversar, dava cada fumo na gente! Colocava os moços de um lado e as moças de outro. Quando as aulas terminavam mais cedo, íamos dar voltas e flertar na avenida, no ‘jardim de cima’ porque no ‘jardim de baixo’ a gente não podia ir, acho que por causa dos frequentadores. Minha mãe foi sempre muito presente, ela ficava sentada no banco ao redor do coreto, em frente ao Cine São Carlos, vigiando as filhas.

A moçada namorava no cinema. A sessão das 18h ficava lotada. Eram aqueles namoricos bobos, de pegar na mão. Se algum moço tentava um abraço mais audacioso a gente não deixava, ficava com medo dos outros verem e ficarmos ‘faladas’. No andar de cima do cinema, após as sessões, aconteciam os bailes dançantes da Associação Comercial. O seo Lira ficava na porta e não deixava os menores entrarem. Bastava ele se distrair que a gente passava e se escondia atrás das cortinas. O porteiro nos deixava entrar somente com nossas mães. Nesses bailes aprendi a dançar. Os ensaios para a formatura da Academia aconteceram na Associação. Quem sabia dançar ensinava os formandos que não sabiam. Recebi o diploma, em 63, e parei de estudar.”

Casamento e volta às aulas

“Aos 14 anos conheci meu futuro marido. Ele tinha uma linha de leite, da zona rural para a Polenghi, e passava todos os dias em frente a nossa casa. Flertamos até nos encontrarmos no armazém do Seo Tonico Pereira, situado perto de casa. Ficamos conversando e começamos a namorar. Ele morava na Pratinha e nos encontrávamos somente nos finais de semana, sempre na avenida (Conde Ribeiro do Valle).

Quando recebi o diploma de auxiliar de escritório da Academia já trabalhava no escritório do IBC (Instituto Brasileiro de Café), onde fiquei até 64. Em 14 de fevereiro de 1965, casei-me com Lairce Rodrigues Paina e, em dezembro, tivemos nosso 1º filho, Carlos Alberto (Beto). No ano seguinte, voltei a estudar na 1ª turma do curso de Magistério do Ginásio. Meu filho ficava na casa da minha mãe.

No 1º ano, estudei de manhã, e no 2º, passei para o noturno. Para mim era muito difícil, eu precisava estudar muito para acompanhar a turma, pois fiquei destreinada devido aos dois anos afastada da escola. Edna Francisqueti e a Vera Miguel eram nossas professoras de Português, as aulas delas eram bem difíceis. As colegas Maria das Graças Hautz e Nair Smargiasse estudavam comigo em casa e me ajudavam a pajear o Beto. No último ano, tive meu 2º filho, Cássio Roberto.

Em 69, comecei a cursar Letras, à noite, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Guaxupé (atual Unifeg). De manhã, dava aulas no Grupo Coronel. Meu marido me ajudava a pagar a faculdade, e minha mãe, a criar os meus filhos. Minha irmã Lilian os pegava na saída da escola. Quem me incentivou a fazer faculdade foi o Luiz da Regional (Luiz Pereira), um dos professores do Magistério.

Foram 4 anos bastante difíceis. A turma começou com 70 alunos e caiu para menos da metade na formatura. Era preciso estar quite com as mensalidades para fazer as provas finais. Certa noite, eu e um colega fomos chamados até a secretaria, onde nos informaram que não poderíamos fazer prova porque estávamos em débito. O diretor, Dr. João Marques, falou: ‘quem não pode pagar, não estuda’. Eu morri de chorar. Fiz a prova na 2ª chamada. Era humilhante, mas graças a Deus, venci. Depois, ainda estudei Pedagogia.

Durante o curso de Letras tive minha terceira filha, Luciane. Nesse período, minha vida começou a melhorar, passei a dar aulas de 5ª à 8ª série, lecionei na escola Nossa Senhora da Aparecida, no Polivalente e no Ginásio. Até comprei um carro para dar aulas em Juruaia. Depois, através de concurso, fui efetivada como professora de Português, no Polivalente. Posteriormente, quando Helena Nassif se aposentou como diretora da Escola Estadual Major Luiz Zerbini, fui convidada a ocupar o cargo dela, onde fiquei durante 14 anos, até minha aposentadoria, em 2000.”

Trabalho voluntário

“A partir de então, passei a ajudar na criação das minhas netas Isabella e Paula, filhas de Cássio e Maria da Graça. Havia 10 anos que eu participava, também, do Lions Club e do Instituto Santa Rita, que auxilia gestantes carentes. Fui vice-presidente desse Instituto por 8 anos e, em 2009, presidente. Passei a me dedicar mais ao voluntariado.

Já representei o Lions no Conselho Municipal de Educação e no Conselho da Criança e do Adolescente. Atualmente, participo do Conselho Social.

Depois de enfrentar e vencer um câncer no estômago, em 2005, fui convidada pela Cida Sandroni a participar do Luz da Vida no Combate ao Câncer. Falo sempre que a pior parte é quando a gente recebe o diagnóstico da doença e pensa que é o fim do mundo. Só depois eu percebi que há muitas opções e caminhos a percorrer. E o apoio que a gente recebe da família, dos amigos e até de pessoas que nem pareciam tão chegadas é muito importante.

Um desafio atual é administrar a Guaxupezinho, loja de calçados infantis. Esta loja é da minha filha, que se casou e foi morar em São Paulo. Acabamos de retornar de lá, pois no último dia 6 nasceu meu 3º neto, Lucas, mais uma alegria pra gente.”
 
Em 2009, Lúcia recebeu da Câmara Municipal o Título de Honra ao Mérito pelos serviços prestados à comunidade. Mas prefere realizar seu trabalho em silêncio. Sem deixar de fazer barulho nas festas, obviamente. Ela, as irmãs e outros familiares desfilavam no bloco Os Bicancas e, até hoje, nos dias de carnaval, seguindo a tradição, toda a família participa da folia em frente à casa onde moraram os pais. Ali, com a família reunida, tudo vira uma festa.
 

Confira a Galeria de Fotos

As irmãs Eliana, Lilian e Lúcia. O casal Lúcia e Lairce, no casamento em 65, ladeados por Eugênio e Jamile Lozano. Lúcia e o marido Lairce com os filhos Beto, Cássio e Luciane.

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