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quarta-feira, 5 de setembro de 2018

O casamento é um fator de proteção contra o suicídio?

O mês de setembro foi eleito mundialmente para falar a respeito de um tema delicado, porém necessário: o suicídio. Segundo os últimos dados do Perfil Epidemiológico das Tentativas e Óbitos por Suicídio, publicado pelo Ministério da Saúde em 2017, houve um aumento de tentativas de tirar a própria vida de 209,5% entre as mulheres e de 194,7% nos homens, entre 2011 e 2016.  Entre 2011 e 2015, foram registrados 55.649 óbitos por suicídio no Brasil.
 
Os homens têm um risco quatro vezes maior de tirar a própria vida que as mulheres, porém quando se fala em tentativas, a prevalência é maior no sexo feminino. Quanto ao perfil, 60% das pessoas que se suicidam são solteiras, viúvas ou divorciadas. Entre os casados ou em uma união estável, o índice é de 30%.

Seria, portanto, o casamento um fator de proteção contra o suicídio?
 
Segundo a psicóloga Denise Miranda de Figueiredo, terapeuta de casal e família e cofundadora do Instituto do Casal, o casamento pode ser considerado um fator de proteção contra o suicídio. Entretanto, a ideação suicida, as tentativas e o suicídio são expressões de uma crise que se desenvolve de forma gradual e, muitas vezes, silenciosa.

“O suicídio é um fenômeno complexo e está relacionado a uma série de fatores, como os sociais, econômicos, culturais, biológicos e a história pessoal de cada indivíduo”.
 
“Em cerca de 80 a 90% dos casos, as tentativas e o suicídio estão ligados a transtornos psiquiátricos, como a depressão, o transtorno bipolar, entre outros. O abuso de álcool e outras drogas também é um importante fator de risco. Porém, há outros acontecimentos, como a morte do cônjuge, o divórcio, o desemprego prolongado, problemas financeiros, violência doméstica, morte de um filho e morte dos pais, por exemplo, que podem aumentar o risco do suicídio dentro do contexto de um relacionamento afetivo”, comenta Denise.
 
Você presta atenção no (a) seu (sua) parceiro (a)?

Para a psicóloga Marina Simas de Lima, terapeuta de casal e família e cofundadora do Instituto do Casal, o mais importante é conhecer os sinais de que o (a) parceiro (a) não está bem para intervir de forma precoce. “A conexão entre o casal é muito importante para perceber as emoções e os comportamento do outro. Atualmente, há uma escassez de tempo para a vida a dois, para o diálogo, para a intimidade. Com isso, fica mais difícil identificar possíveis sinais de que nosso (a) parceiro (a) precisa de ajuda”, reflete Marina.
 
Mas, quais são os sinais de que alguém não quer mais viver?
“É muito comum perceber sentimentos de desesperança, desespero, desamparo e depressão na pessoa com intenções de tirar a própria vida, conhecida como a regra dos 4 D. A desesperança é o vazio interior, a sensação de que não resta mais nada a se fazer, de que não vale à pena viver. A pessoa pode expressar a desesperança de algumas maneiras, como ‘não vejo saída para esse problema’, ‘essa dor nunca vai passar’’, cita Denise.
 
“O desespero, normalmente, é um sinal de repressão profunda dos sentimentos de raiva, frustação, mágoa, etc. Em resumo, é a sensação de ter chegado no fundo do poço e não conseguir pensar em uma saída”, diz Marina.
 
“Já o desamparo é sentido pela pessoa como uma profunda solidão que o torna incapaz de enfrentar as situações, de reagir. O isolamento social é a forma mais comum de perceber o desamparo. Aquele (a) parceiro (a) que antes gostava de estar junto, sair, conversar, prefere ficar mais sozinho (a) e isolado (a)”. Algumas frases típicas de desamparo são ‘ninguém vai sentir a minha falta’ ou ainda ‘você ficará melhor sem mim’, acrescenta Denise.
 
Os sentimentos de depressão são mais típicos, mais característicos e mais conhecidos, por serem mais falados. Porém, aqui vai um alerta das especialistas: nem todas as pessoas expressam a depressão da mesma maneira. “Os sinais da depressão podem variar muito de pessoa para pessoa. Embora a tristeza, o choro e a apatia sejam mais comuns, há também aqueles que podem ficar mais irritados, mais agressivos, com mais ou menos sono, com mais ou menos fome”, comentam as psicólogas.
 
Como ajudar?
“Quando temos um relacionamento afetivo, nosso (a) parceiro (a) é a pessoa mais próxima de nós. Nos relacionamentos mais longos, principalmente, esse vínculo é ainda mais forte. Assim, dentro dessa dinâmica conjugal, é preciso estar atento às mudanças de comportamento, principalmente quando há algum fator de risco envolvido”, ressalta Denise.
 
De acordo com Marina, em 90% dos casos, o suicídio pode ser prevenido. “A maioria das pessoas que tira a própria vida havia comunicado, de alguma maneira, suas intenções para pessoas próximas. Portanto, toda ameaça de suicídio precisa ser levada em consideração”. 
 
“O casamento envolve a escuta ativa, a solidariedade e a compreensão sobre os sentimentos do outro. Embora o suicídio e as tentativas de tirar a própria sejam menos prevalentes entre os casados, pode acontecer. Portanto, é preciso estar atento e preparado para reconhecer os sinais”, dizem as terapeutas.
 
O ideal é procurar ajuda profissional de um psiquiatra e de um psicólogo. Caso a situação seja emergencial, jamais deixe a pessoa sozinha. Chame o SAMU e certifique-se de deixar o ambiente seguro, retirando objetos cortantes, armas de fogo, remédios e fechando janelas até que o socorro chegue.   
 
“Quando ocorre o suicídio, o mais importante para quem fica é compreender que fez o melhor possível. Não adianta se culpar ou se punir. Infelizmente, é necessário entender que se o cônjuge tomou essa atitude é porque não tinha recursos internos para lidar com a situação, para perdoar, para seguir em frente”, finalizam Denise e Marina.

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